DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

Artigo: Bolsonarismo identitário resiste à Covid-19?

Eventos como a pandemia podem estremecer apoio ao presidente, principalmente, nos eleitores que perderam parentes ou amigos

Carlos Pereira, Amanda Medeiros e Frederico Bertholini *

21 de junho de 2020 | 05h00

Já se passaram quase 90 dias desde que as medidas de isolamento social tiveram início. Após esses três meses distante de amigos, familiares, trabalho e escola, seria mais do que natural observar sinais de cansaço das pessoas com o distanciamento social. Apesar de termos atingido a trágica marca de 40 mil mortes pela Covid-19, com cerca de mil óbitos a cada dia que passa, a sensação é de profundo esgotamento.

Para piorar a situação, muitos brasileiros perderam o emprego e vários empresários, especialmente os micro e pequenos, têm sofrido enormes prejuízos financeiros, com riscos reais de quebra de seus negócios e empreendimentos. O IBRE FGV estima que houve uma redução em torno de 10% da atividade econômica nesse período. A projeção desse instituto para o PIB deste ano é de -6,4% e a da taxa de desemprego é de 18,7%.

Diante deste cenário, era de se esperar redução drástica do apoio da população às medidas de isolamento social. 

Entretanto, de forma muito similar aos resultados obtidos na primeira rodada da pesquisa de opinião (realizada entre os dias 28/03 e 04/04), os resultados da segunda rodada da pesquisa, que também realizamos com o apoio do Estadão entre os dias 28/05 a 05/06, mostram que a grande maioria dos brasileiros (em torno de 82% da nossa amostra de 7020 pessoas em todos os estados brasileiros) continua a dar apoio total ou parcial ao isolamento social. A média de apoio ao isolamento social não sofreu quase nenhuma variação, passando de 4.18 para 4.17, em uma escala de 1 a 5. 

Por outro lado, a média da avaliação do desempenho do presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia, que já era baixa, caiu ainda mais desde a primeira coleta, de 2.11 para 1.78, também em uma escala de 1=péssima a 5=ótima. Mais precisamente, os que avaliam sua performance como ruim e péssima passou de 70% para 77%. Já os que avaliam como ótima e boa diminuiu de 27% para 16%, e os que julgam como regular diminuiu de 18% para 15%. 

Os governadores também apresentaram piora na avaliação média de seu desempenho na pandemia, passando de 3.9 para 3.14. Enquanto a avaliação negativa (ruim e péssima) subiu de 19% para 29%, a avaliação positiva (ótima e boa) diminuiu fortemente de 77% para 44%. Os que avaliam como regular a performance dos governadores aumentou de 39% para 58%.

Um dos objetivos mais relevantes das duas rodadas da pesquisa foi analisar como a preferência político-ideológica dos respondentes interfere no apoio ao isolamento social, bem como na avaliação do desempenho do presidente Bolsonaro. É importante ressaltar que não se trata do mesmo grupo de pessoas nas duas rodadas da pesquisa. Portanto, as comparações devem ser interpretadas com parcimônia. 

Como na primeira rodada, a maior parte dos respondentes autodenominados como de esquerda, centro-esquerda e centro continuam sendo consistentemente favoráveis ao isolamento social na segunda rodada. Conforme pode ser observado na Figura 1, enquanto respondentes de esquerda e centro-esquerda aumentaram o apoio ao isolamento, há uma pequena queda entre aqueles autodenominados como de centro. A avaliação do desempenho do Presidente na pandemia foi ainda mais negativa entre esses eleitores na atual rodada da pesquisa. 

O mesmo padrão observado acima foi também reproduzido pelos respondentes de centro-direita. Estes eleitores tanto aumentaram o apoio ao isolamento, como também passaram a avaliar ainda mais negativamente o desempenho de Bolsonaro. 

Um comportamento oposto, entretanto, foi observado entre os eleitores autodenominados como de direita, com uma redução expressiva do apoio ao isolamento na segunda rodada da pesquisa e uma redução na avaliação negativa da performance de Bolsonaro. 

O padrão de avaliação dos governadores dos estados mudou bastante na segunda rodada da pesquisa. Todos os extratos ideológicos de eleitores diminuíram expressivamente a avaliação positiva do desempenho dos líderes estaduais durante a pandemia, especialmente com o aumento no número de eleitores que passaram a avaliá-los como regular. 

Esses resultados confirmam um padrão anteriormente identificado nas nossas análises. Com exceção de uma parcela dos eleitores de direita, a polarização política parece ter enfraquecido no Brasil com a Covid-19. A maioria dos eleitores da centro-direita e segmentos expressivos da direita apoiam o isolamento social e têm um posicionamento crítico à performance do presidente Bolsonaro durante a pandemia.

Que direita’ é essa?

Mas afinal, quem são esses eleitores de centro-direita e de direita? No que eles acreditam? Estariam ainda dispostos a reeleger o Presidente em 2022? Por que estariam divididos em relação ao isolamento social e a avaliação do Presidente?

A partir dos resultados obtidos na primeira rodada da pesquisa, sugerimos a existência de dois grupos principais de eleitores de Bolsonaro. Um grupo, que denominamos de identitários, seria mais orgânico/coeso e ofertaria suporte ao governo porque acredita no projeto político e nos valores conservadores de Bolsonaro. O outro grupo, denominado pragmático, ofertaria um apoio mais circunstancial ao governo na medida em que o Presidente fosse capaz de proporcionar o que de fato lhes interessa: políticas econômicas liberais, combate à corrupção e contenção do petismo.

Para examinar mais de perto as diferenças nos perfis pragmático e identitário dos eleitores de Bolsonaro, convidamos os nossos respondentes a escolher entre quatro pares de candidatos hipotéticos à presidência em 2022, cada um deles representando agendas polares com relação a quatro dimensões: 1. visão de mundo (conservadora com apego a valores morais e da família vs. progressista com ênfase nos direitos das minorias); 2. pauta (inclusão social vs. combate à corrupção); 3. política econômica (desenvolvimentista vs. liberal); e 4. partidos (proposta de governar com ou sem aliança com os partidos políticos). 

Como pode ser observado na Figura 2, os eleitores de centro-direita e de direita que avaliam positivamente a performance do Presidente Bolsonaro valorizam mais a pauta de costumes e são bastante conservadores. Preferem que seu candidato à presidência em 2022 governe sem alianças com os partidos, priorize a luta contra a corrupção, defenda uma menor participação do estado na economia e lute a favor de valores conservadores baseados na moral e na família. Os que avaliam mal a performance do Presidente Bolsonaro, são menos extremos em todas as dimensões e valorizam as políticas econômicas liberais acima de qualquer outro aspecto. 

O próximo passo foi investigar como seria o comportamento eleitoral dos respondentes que se autodenominam de centro-direita e direita nas próximas eleição para presidente da república em 2022. Consolidamos as respostas a essa pergunta em três grupos: 1) com certeza ou muito provavelmente votaria na reeleição de Bolsonaro; 2) reelegeria o Presidente fundamentalmente para evitar a vitória o PT ou de outro candidato de esquerda; e 3) não votaria em Bolsonaro de jeito nenhum à reeleição. 

A Figura 3 exemplifica o comportamento de voto para 2022 a partir de duas dimensões: valores (progressista vs. conservador) e política econômica (desenvolvimentista vs. liberal). Percebe-se que a maioria dos eleitores de centro-direita e de direita votariam na reeleição do presidente Bolsonaro seja por convicção identitária (38%), seja por pragmatismo estratégico para evitar a vitória da esquerda (40%). O maior contingente desses eleitores, especialmente os identitários convictos, está localizado no quadrante superior direito; ou seja, são conservadores nos costumes e valores e a favor de uma menor presença do estado na economia. Também é possível identificar, especialmente entre os que votariam em Bolsonaro para evitar a esquerda, respondentes mais progressistas; ou seja, que preferem candidatos que defendam os direitos de minorias do que pautas morais e familiares. Já os eleitores de centro-direita e de direita que apresentam uma maior rejeição a Bolsonaro (22%) são majoritariamente progressistas nos valores e costumes e liberais na economia. 

‘Medo da morte’ vs. identidade: quem ganha?

Na primeira rodada da pesquisa identificamos que a proximidade dos respondentes a pessoas contaminadas pelo novo Coronavírus (medo da morte), com graus variados de gravidade da doença, aumentava o apoio de eleitores de centro-direita e de direita ao isolamento social. Além disso, o medo da morte atenuava as expectativas de potenciais prejuízos financeiros como decorrência da diminuição da atividade econômica. 

A proporção de pessoas que declaram conhecer alguém infectado pela covid-19 aumentou substancialmente em relação aos dados coletados na primeira rodada da pesquisa. Esse número era de aproximadamente 35% (17% desenvolveram a covid-19 no estágio leve e 18% no estágio mais grave, dos quais 7% vieram a óbito). Já na segunda rodada, a proximidade do medo da morte subiu para 71% (32% no estágio leve e 39% no estágio mais grave, dos quais 20% vieram a falecer).

Será que a exposição significativamente maior a casos de Covid-19 com graus variados de gravidade interfere na decisão de voto dos eleitores de centro-direita e direita para presidente? 

Oferecer respostas definitivas para essa pergunta parece ainda precipitado, pois ainda estamos muito distantes das eleições presidenciais de 2022. Muitos outros aspectos podem interferir nesta decisão. Entretanto, um retrato do que poderia acontecer hoje pode nos oferecer pistas plausíveis de como pessoas podem reagir eleitoralmente a choques exógenos de grande magnitude em suas vidas, como a pandemia pelo novo Coronavírus. 

A Figura 4 retrata um exercício estatístico em que estimamos o impacto da proximidade de pessoas contaminadas pela Covid-19 (nossa proxy de medo da morte) na probabilidade de eleitores de centro-direita e de direita de votarem em Bolsonaro nas eleições de 2022. Também incluímos variáveis que estimam o nível de preferência por valores identitários conservadores, liberais, anti-partido e anti-corrupção. Além do mais, testamos o impacto da expectativa de prejuízo econômico em função da pandemia. Deixamos de controlar pelo recebimento do auxílio emergencial porque esta variável não teve impacto na avalição do Presidente, pois sua distribuição foi praticamente uniforme em todos os graus de aprovação/rejeição.

Os resultados sugerem que a proximidade do “medo da morte” e a expectativa de prejuízo econômico reduzem significativamente as chances desses eleitores votarem em Bolsonaro em 2022. Por outro lado, quanto mais conservador e anti-partido forem esses eleitores, maiores serão as chances de votarem na reeleição do Presidente. Embora essas variáveis tenham efeitos opostos, o impacto substantivo de ser conservador é muito maior do que o medo da morte. Em outras palavras, ter proximidade com alguém que veio a falecer por Covid-19 reduz em torno de 20% as chances do eleitor de direita e centro-direita votar em Bolsonaro. Contudo, possuir a identidade conservadora com o Presidente pode garantir quase 90% de apoio desse eleitor à reeleição do capitão.

Esses resultados sugerem que a identidade que as pessoas desenvolvem com um determinado grupo gera um senso de pertencimento e de segurança para os membros do grupo. Por esse motivo, as pessoas tendem a usar suas identidades como lentes protetoras que reduzem as chances de os valores do grupo serem reavaliados. Como já amplamente documentado na literatura de psicologia social, fortes vínculos identitários ativam os igualmente fortes mecanismos psicológicos de defesa, distorcendo, evitando e/ou negando informações factuais que ameaçam a identidade social do indivíduo, e nesse caso, do eleitor. 

Contudo, alguns eventos, como a pandemia, exercem tamanha influência sobre a vida dos indivíduos que membros do grupo, especialmente os menos identitários, podem ver suas crenças abaladas. Ou seja, conexões identitárias podem não ser mais suficientes para justificar a aderência do indivíduo ao grupo, tornando-se maleáveis. Nesses momentos, os custos de mudança diminuem e, com isso, aumentam sensivelmente as chances de alguns membros pragmáticos do grupo desgarrarem ao considerar outras alternativas eleitorais. 

* Carlos Pereira, Professor Titular, FGV EBAPE, Rio de Janeiro; Amanda Medeiros, Professora, FGV EBAPE, Rio de Janeiro; Frederico Bertholini, Professor Adjunto, Dep. Ciência Política UNB

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