Adriano Machado / Reuters
Adriano Machado / Reuters

Artigo: Autoridades, parem de distorcer fatos

Ao fazer ou compartilhar declaração falsa, líderes políticos têm invertido o sinal da mensagem ou inflado o que chega à população

Natália Leal, Tai Nalon, Edgard Matsuki, Gilmar Lopes, Daniel Bramatti e Cristina Tardáguila, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2020 | 05h00

Duas batalhas estão sendo travadas no Brasil ao mesmo tempo: uma, na seara da medicina, contra a expansão do novo coronavírus, e outra contra a desinformação produzida por ele. Enquanto na linha de frente da primeira há milhares de aguerridos profissionais de saúde, na segunda, o exército é composto por um grupo dedicado, mas ainda reduzido, de checadores de fatos. Sem o apoio explícito e o comprometimento das autoridades com a verdade, o País corre o risco de perder a guerra contra os boatos sobre a covid-19.

Desde 26 de fevereiro, quando o País registrou o primeiro caso de coronavírus, os fact-checkers brasileiros já identificaram mais de 100 informações falsas sobre a pandemia – mais de três por dia. 

De acordo com dados da base internacional de checagens sobre o novo coronavírus mantida pela International Fact-Checking Network, Facebook, WhatsApp e Twitter são os canais mais utilizados para distribuir desinformação no Brasil, mas a lista completa é longa.

O que aflige os checadores é constatar que autoridades brasileiras, graças à influência de seus cargos, contribuem de forma expressiva para o avanço da desinformação. Desde o início da pandemia, políticos produziram, endossaram e compartilharam dados errados sobre vacinas, distanciamento social e a origem do novo coronavírus. Também usaram dados defasados e acabaram criando um ambiente de desconfiança econômica em que florescem golpes digitais.

Ao dar voz, espaço, pixels, imagens e caracteres a inverdades, as autoridades colocam em risco a vida dos brasileiros. Monitoramento feito pelos checadores mostra que, ao fazer ou compartilhar uma declaração falsa, autoridades têm conseguido inverter o sinal da mensagem ou inflar o que chega à população. 

A hidroxicloroquina é um exemplo. Ao tratar como definitivos estudos ainda incipientes feitos com o medicamento, políticos o elevaram à condição de cura para a covid-19. Não demorou para que a droga desaparecesse das farmácias, prejudicando os que, de fato, precisam dela, e expondo a efeitos colaterais os que a ingeriram em busca de proteção contra o novo coronavírus.

É urgente, portanto, que as autoridades tenham responsabilidade ao falar sobre a pandemia. Que se certifiquem de que o conteúdo a ser exposto tem base científica, é atual e se refere ao local sobre o qual estão falando. Que cessem já os discursos distorcidos, com contextos minimizados ou teses na contramão da ciência. O ruído dessas falas já teve consequências dramáticas. 

No Irã, mais de 40 pessoas morreram envenenadas ao ingerir álcool puro para curar o coronavírus. No Reino Unido, torres de celular foram queimadas por quem acredita que a covid-19 vem do sistema 5G de telefonia móvel. No Brasil, o isolamento social perde adesão ao ser atacado por autoridades que desconsideram o que é adotado mundo afora. 

A transparência em relação ao que se sabe sobre a covid-19 é inegociável. Cidadãos tomam decisões diárias com base nesses dados. Eles precisam ser atuais, fidedignos e acessíveis a todos.

Os checadores do Brasil ressaltam ainda que estão em contato permanente com as principais plataformas de tecnologia e redes sociais do mundo, em um esforço conjunto contra a desinformação. Seguirão denunciando publicamente comportamentos irresponsáveis na divulgação ou na amplificação de discursos falsos sobre o coronavírus e a covid-19. Venham eles de autoridades ou não. / NATÁLIA LEAL, AGÊNCIA LUPA, TAI NALON, AOS FATOS, EDGARD MATSUKI, BOATOS.ORG, GILMAR LOPES, E-FARSAS, DANIEL BRAMATTI, ESTADÃO VERIFICA, CRISTINA TARDÁGUILA, INTERNACIONAL FACT-CHECKING NETWORK

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