Arruda tenta minimizar quebra de decoro

O senador José Roberto Arruda (sem partido-DF) tentouminimizar nesta sexta-feira, diante do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar do Senado, a gravidade da violação do painel de votaçãodo Senado e afirmou ter cometido apenas um deslize regimental, que não deveria colocar em risco o seu mandato.?Eu nãoroubei, não desviei dinheiro público?, disse, num recado velado ao presidente do Senado, Jader Barbalho (PMDB-PA).Redistribuição de responsabilidadesEm depoimento de sete horas e meia, ele apresentou uma terceira versão para o escândalo, tentando redistribuir a responsabilidadepelo ato ilegal: desmentiu parte das versões da ex-diretora do Prodasen Regina Célia Peres Borges e do ex-presidente doSenado Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), mas foi traído pela confirmação de uma ligação da ex-funcionária para o seutelefone celular na manhã em que o Senado cassou o mandato de Luís Estevão.Os argumentos do senador não convenceramseus colegas e complicaram ainda mais sua situação."Existe apenas um vilão"?Persistem contradições importantes, definidoras?, reagiu o senador Roberto Saturnino Braga (PSB-RJ), relator do processopor quebra de decoro parlamentar.?Estamos diante de um autêntico samba do crioulo doido, existe apenas um vilão, que é adona Regina?, ilustrou o senador Jefferson Peres (PDT-AM). ?Ela deve ir para uma penitenciária ou clínica psiquiátrica?, acrescentou, com certa indignação.?O senhor deveria reconhecer que foi grave e ter o cuidado de não parecer que quer levar aresponsabilidade para o mais fraco?, sugeriu Pedro Simon (PMDB-RS). ?Só o encontro com a verdade liberta, mesmo quetardio?, endossou seu ex-colega de partido, Lúcio Alcântara (PSDB-CE).?Uma primeira versão existiu, mas não está seconstatando?, emendou o senador Casildo Maldaner (PMDB-SC). ?Não há dúvidas de que é diferente ordenar, consultar e pedir,os depoimentos são diferentes?, constatou Osmar Dias (PSDB-PR).Tensão e nervosismoNo enredo que apresentou nesta sexta-feira, Arruda contou que o ex-presidente do Senado teria lhe pedido que consultasse o Prodasensobre o grau de segurança do painel de votação, autorizando o uso do seu nome.?O clima era de muita tensão e boato, haviaum choque político, uma beligerância aberta?, lembrou, para dizer que ACM estaria preocupado com boatos de que o painel devotações seria violável.?Esse negócio, todo mundo fica sabendo, o Prodasen deve saber na hora?, teria dito o senador baiano,segundo seu relato. ?Você, que é engenheiro, devia saber. Por que não pergunta para a Regina como funciona??, emendou.?Posso falar com ela em seu nome??, teria perguntado Arruda, de acordo com o relato desta sexta-feira. ?Pode?, ouviu em resposta.Ele garantiu não ter tomado nenhuma iniciativa imediatamente e não soube precisar em que dia conversou com ReginaBorges. ?Na minha lembrança não foi na véspera, pode ter sido no dia 26?, comentou, em um dos desmentidos que fez à versãoda ex-diretora do Prodasen.Em sua confissão e depoimentos, ela garantiu ter sido chamada à casa de Arruda na véspera dacassação de Luís Estevão. Segundo Arruda, ao recebê-la em seu apartamento, perguntou-lhe se ela teria conhecimento dosboatos que corriam no Senado de que o painel de votações era violável.?Quando a votação é secreta, vocês sabem??,perguntou. ?O senador ACM quer saber se isso é possível ou não?, acrescentou. ?Eu vou saber e te falo?, reagiu a funcionária.Nova versãoEm sua nova versão, o ex-líder do governo sustentou que o que se seguiu depois é fruto de uma ação voluntária da entãodiretora do Prodasen, que teria entendido errado o que era uma simples consulta.Na tentativa de comprovar que a decisão deviolar o painel foi exclusivamente dela, ele sustentou que Regina Borges prometera lhe dar um retorno, e, já depois da votação, ela lhe telefonou paraperguntar como devia fazer para entregar ?uma coisa importante? para Antonio Carlos Magalhães.Ela teria lhe dito que estavadiante da biblioteca do Senado, lugar onde a ex-diretora do Prodasen garantiu ter encontrado um dos assessores de Arruda,Domingos Lamoglia.?Aí caiu a minha ficha, e a minha impressão foi de que ela tinha o resultado da votação?, contou. ?Pode terhavido uma precipitação da parte dela?.Arruda não convenceuApesar dos esforços, José Roberto Arruda não conseguiu comprovar ter feito apenas uma consulta quanto à segurança dopainel de votações do Senado.Na opinião dos senadores, uma simples consulta, mesmo que em nome de ACM, não poderiater resultado em ato tão grave quanto a violação do painel, acompanhado por momentos de tensão de todos os envolvidos.?Asua versão dos fatos transforma a dona Regina em uma pessoa cujo desequilíbrio e desinteligência beira a demência?, disseSaturnino Braga.ACM, curioso, segundo ArrudaO ex-líder do governo também lembrou o momento da entrega da lista para ACM: disse que o senador ficoucurioso, mas não demonstrou irritação. E confirmou que o senador baiano telefonou para a ex-funcionária dando-lhe parabénspelo serviço e tentando tranqüilizá-la. ?Fiquei aliviado quando ele leu e a parabenizou?.O senador garantiu que não guardou cópia do documento e que não tem certeza de ter-se tratado da verdadeira lista com osvotos que cassaram Luís Estevão. ?Não tenho certeza de que a lista era verdadeira, que era a lista da cassação e que foiimpressa em um computador?, comentou.Seu relato sobre o aspecto do documento ? cuja impressão estaria borrada ? sinalizou que poderia se tratar de uma cópia xeróx. ?Eu confesso que aquele papel queimou minha mão?, disse Arruda."Desleal e precipitado"Ex-líder do governo, ele garantiu não ter mostrado o documento ou comentado o assunto com o presidente Fernando HenriqueCardoso e esclareceu a que fatos se referia quando disse que foi leal ao governo em momentos mais graves do que o queassola o Congresso e ainda criticou o PSDB.?Quando tinha o caso Marka e FonteCindam, que eu achei gravíssimo, ouvi asexplicações, me convenci e defendi o governo?, enumerou. ?É ruim para o partido (ter me abandonado), pois fica com a imagemde desleal e precipitado?.Ele citou ainda os casos do grampo no BNDES durante a privatização e o escândalo que envolveu Eduardo Jorge CaldasPereira. ?Tive a grandeza de defendê-lo, apesar das nossas diferenças?, frisou.José Roberto Arruda não poupou ACM e tentoutraçar um novo perfil de Regina Borges.?Eu acho que isso é um pouco do temperamento dela?, relatou, referindo-se aos sinais de tensão mostrados pela ex-diretora.?Ela é agitada, tira os óculos, gesticula demais?.E tentou demonstrar tranqüilidade ao pedir que o Conselho de Éticaantecipasse a acareação entre os três. ?Eu estou falando a verdade como era, mas não vou inventar coisas para agradar a estaou aquela versão?.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.