Arruda diz ter ajudado financeiramente a cúpula do DEM

Em entrevista à revista Veja em setembro de 2010, ex-governador do DF diz que fez de pequenos favores a financiamentos de campanha; material foi publicado nesta quinta-feira

17 de março de 2011 | 23h06

BRASÍLIA - O site da revista Veja publicou nesta quinta-feira, 17, uma entrevista com o ex-governador José Roberto Arruda, em que ele diz que ajudou financeiramente a cúpula do DEM, partido o qual era filiado até dezembro de 2009, quando estourou o escândalo de corrupção no Distrito Federal.

 

"Eu era o único governador do DEM. Recebia pedidos de todos os estados. Todos os pedidos eu procurei atender. E atendi dos pequenos favores aos financiamentos de campanha. Ajudei todos", disse Arruda. Segundo ele, o PSDB também foi beneficiado.

 

Segundo a revista, Arruda menciona ajuda ao presidente do DEM, José Agripino Maia (RN), ao ex-presidente da legenda Rodrigo Maia (RJ), e outras lideranças do partido, entre eles o líder do DEM na Câmara, ACM Neto (BA), o senador Demostenes Torres (GO), o ex-senador Marco Maciel (PE) e o deputado Ronaldo Caiado (GO).

 

Os advogado do ex-governador José Roberto Arruda, Nélio Machado e Cristiano Maronna, informaram nesta quinta ao Estado que a entrevista à revista Veja foi dada em setembro de 2010. Segundo o advogado, as palavras de Arruda foram dadas em outro contexto e que a "ajuda" ao DEM e a outros políticos citada na entrevista ocorreu dentro da lei. "Causa estranheza a publicação de uma matéria feita há seis meses, que na época foi descartada e agora vem a ser publicada", disse Cristiano Maronna.

 

"Em 2008, o senador Agripino veio à minha casa pedir R$ 150 mil para a campanha da sua candidata à prefeitura de Natal, Micarla de Sousa (PV). Eu ajudei, e até a Micarla veio aqui me agradecer depois de eleita. O senador Demóstenes me procurou certa vez, pedindo que eu contratasse no governo uma empresa de cobrança de contas atrasadas. O deputado Ronaldo Caiado, outro que foi implacável comigo, levou-me um empresário do setor de transportes, que queria conseguir linhas em Brasília", disse Arruda, de acordo com o site da revista.

 

Ao falar de Rodrigo Maia, Arruda menciona o pai do deputado, o ex-prefeito do Rio César Maia (RJ). "O próprio Rodrigo Maia, claro. Consegui recursos para a candidata à prefeita dele e do Cesar Maia no Rio, em 2008. Também obtive doações para a candidatura de ACM Neto à prefeitura de Salvador", disse o ex-governador, segundo o site.

 

Na entrevista, Arruda cita uma suposta reunião que teria ocorrido na casa do ex-senador Marco Maciel na presença do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e do ex-ministro da Fazenda Gustavo Krause. O encontro teria servido para discutir ajuda à reeleição de Maciel. "Krause explicou que, para fazer a pré-campanha de Marco Maciel, era preciso R$ 150 mil por mês. Eu e Kassab, portanto, nos comprometemos a conseguir, cada um, R$ 75 mil por mês. Alguém duvida da honestidade do Marco Maciel? Claro que não. Mas ele precisa se eleger", afirmou Arruda. Maciel acabou perdendo a eleição em outubro e não se elegeu.

 

O ex-governador, segundo o site da revista, afirmou ainda que também favoreceu o PSDB. " No caso do PSDB, a ajuda também foi nacional. Ajudei o PSDB sempre que o senador Sérgio Guerra, presidente do partido, me pediu. E também por meio de Eduardo Jorge , com quem tenho boas relações. Fazia de coração, com a melhor das intenções", afirmou o governo.

 

Até o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) foi lembrado. "O senador Cristovam Buarque, do PDT, que eu conheço há décadas, um dos homens mais honestos do Brasil, saiu de sua campanha presidencial, em 2006, com dívidas enormes. Ele pediu e eu ajudei", disse Arruda.

 

Na entrevista, Arruda, que foi cassado e passou dois meses na prisão, dispara contra as pessoas citadas: "Assim que veio a público o meu caso, as mesmas pessoas que me bajulavam e recebiam a minha ajuda foram à imprensa dar declarações me enxovalhando. Não quiseram nem me ouvir. Pessoas que se beneficiaram largamente do meu mandato. Grande parte dos que receberam ajuda minha comportaram-se como vestais paridas. Foram desleais comigo".

 

Outro lado. O presidente nacional do DEM, negou ao Estado ter pedido ajuda financeira para a campanha, em 2008, de Micarla Souza (PV), ao ex-governador do DF. "Refuto completamente essas declarações. Repilo isso", disse Agripino. "Ele (Arruda) não tem o direito de colocar inverdades", completou.

 

Já o líder do DEM no Senado, Demóstenes Torres, reagiu com virulência às acusações de Arruda. "É um bandido, um delinquente, um vagabundo", afirmou Demostenes. O senador afirmou que vai processar Arruda. "Nunca tive um encontro reservado com esse vagabundo. Ele vai ter que provar o que disse. É um jogo de porco que ele (Arruda) quer para levar todo mundo para o chiqueiro", disse Demóstenes.

 

O presidente do PSDB também negou qualquer ajuda. "Eu estive com Arruda algumas vezes, sempre tivemos relações cordiais, mas nunca recebi qualquer forma de ajuda financeira dele para campanhas do PSDB", disse.

 

Pela assessoria, o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) disse que a entrevista é uma "matéria requentada" e que todas as doações ao partido "foram feitas dentro da lei e estão a disposição do Tribunal Superior Eleitoral". O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) negou também o recebimento de qualquer ajuda de Arruda. O Estado não localizou o ex-senador Marco Maciel até o momento da publicação desta matéria.

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