Arquivos indicam que ministros e parlamentares caíram em grampos

Perícia em pen drives de Protógenes revela também que jornalistas e advogados tiveram conversas gravadas

Fausto Macedo, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

Peritos da Polícia Federal identificaram em dois pen drives de uso pessoal do delegado Protógenes Queiroz arquivos ilustrados com 27 fotografias de "autoridades do governo federal, deputados e alvos da Operação Satiagraha".Os registros secretos do delegado indicam ainda que essas autoridades podem ter caído no grampo telefônico - provavelmente de forma involuntária porque mantiveram contatos com investigados.A informação consta do Relatório de Análise de Mídias, página 19, que a PF preparou exclusivamente com base no conteúdo dos pen drives de Protógenes, apreendidos em novembro por ordem judicial.O delegado armazenou as informações sobre parlamentares e integrantes da administração federal em pastas intituladas pela senha "Brasil", inseridas no capítulo "dados para a vigilância".Também há menção a "áudios interceptados" de suspeitos em contato com autoridades e jornalistas e advogados.Na página 5 do relatório os peritos reproduziram uma tela capturada em um pen drive de 2 gigabytes de Protógenes com cinco arquivos que indicam que o grampo pode ter pego o ministro Geddel Vieira Lima, da Integração Nacional, o senador Heráclito Fortes (DEM-PI), o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, ex-deputado e fundador do PT, e o advogado Nélio Machado, que dirige o núcleo de defesa do chefe do Opportunity.Os arquivos são assim denominados: "Áudio Satiagraha Guilherme x D. Dantas", "Áudio Satiagraha x Luiz Eduardo", "Áudio Satiagraha Guilherme x Min. Geddel", "Áudio Satiagraha Guilherme x Sen. Heráclito Fortes" e "Áudio Satiagraha Nélio Machado".Nem todos os cadastros foram desbloqueados - as anotações estão criptografadas. Um cadastro que os peritos conseguiram abrir, hospedado no item "áudio/diversos Satiagraha", aponta o nome Guilherme em comunicações sucessivas com Daniel Dantas, alvo maior da operação desencadeada em julho e que levou o banqueiro do Opportunity por duas vezes à prisão - da qual Dantas se livrou por decisão do ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF).A PF diz que se trata de Guilherme Sodré Martins, suposto lobista do grupo de Dantas.TRANSCRIÇÃOA PF está fazendo a transcrição dos diálogos. Após concluir essa etapa da investigação, vai encaminhar os dados às autoridades citadas para as medidas que considerarem cabíveis.Em julho, Heráclito já havia recorrido ao STF, pedindo acesso ao inquérito Satiagraha para saber se era efetivamente objeto da investigação. Mas nos autos da 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo, onde tramita o processo contra Dantas, não há citação oficial ao senador - nem poderia haver, porque Heráclito tem foro privilegiado perante a corte suprema.Na página 4 do relatório, os peritos federais colaram outra planilha confidencial de Protógenes, na qual aparece o arquivo intitulado "Acordo guarda-chuva Mangabeira" - para a PF, pode tratar-se do ministro Roberto Mangabeira Unger, de Assuntos Estratégicos. Professor de Direito em Harvard, Mangabeira prestou consultoria jurídica durante quatro anos para a Brasil Telecom nos EUA, na gestão Dantas, antes de assumir cargo no governo Lula.A PF está convencida de que fotos, filmagens e grampos foram feitos por arapongas da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) recrutados por Protógenes. A investigação mostra que pelo menos 84 agentes e oficiais da Abin trabalharam para o delegado da Satiagraha. Ele nega ter mobilizado esse efetivo.À página 17, que traz imagem de Greenhalgh no Aeroporto Santos Dumont, no Rio, o relatório esclarece: "Ganhou destaque ainda um arquivo de vídeo com gravação ambiental na qual se vê a presença, em um aeroporto, de pessoa que foi identificada como Luiz Eduardo Greenhalgh, cujo cinegrafista, ao que se presume, foi o agente da Abin José Maurício Michelone, tendo em vista que ele mesmo, no áudio, em situação paralela, declina seu nome".Greenhalgh admitiu, quando a Satiagraha foi deflagrada, que prestava serviços como advogado ao Opportunity. O que a PF ainda não verificou é se o monitoramento do petista ocorreu quando ele ainda era deputado.Protógenes não foi localizado ontem.

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