Argentina era vista como ameaça à soberania do Brasil

Documentos inéditos revelam que há 20 anos militares temiam avanço nuclear

Marcelo de Moraes, do Estadão

15 de julho de 2007 | 18h44

No fim dos anos 80, os estrategistas militares brasileiros reconheciam a vantagem da Argentina na tecnologia nuclear e temiam que esse predomínio se acentuasse ainda mais até o ano 2000, causando ameaça à soberania nacional. Documentos inéditos e secretos de 1987, pertencentes ao acervo do Conselho de Segurança Nacional e guardados em Brasília, no Arquivo Nacional, mostram essa análise, tratando de estratégia de governo e projeções de cenários. Os papéis foram produzidos pelo Estado-Maior do Exército (EME).Na época, o Brasil ainda não tinha eleições diretas, mas já era governado por um presidente civil, José Sarney. Fora do governo pela primeira vez desde o golpe de 1964 que depôs o presidente João Goulart, os militares se concentravam, agora, em organizar estudos para tratar da Defesa Nacional. Uma das maiores preocupações era justamente uma suposta ameaça nuclear da Argentina. Nos estudos produzidos naquele período, os militares brasileiros simularam até hipóteses de guerras, em que os argentinos também apareciam como os inimigos mais prováveis.No caso do estudo Cenários 2000, a idéia era ´verificar como poderão se apresentar os espaços geopolíticos de algumas áreas de interesse estratégico para o Brasil, no limiar do século 21, em suas configurações política, estratégica e militar, de modo a embasar os planejamentos da nossa Força Terrestre´, segundo informa o texto preparado pela primeira subchefia do EME.As referências à superioridade da Argentina no campo nuclear são citadas dentro do item ´Avaliação Político Estratégica Sul-Americana´, no ponto que trata do ´Estágio Científico e Tecnológico´. Depois de registrar como problemas nesse campo a ´educação deficiente, gerando sociedades despreparadas´, a ´falta de recursos humanos e financeiros´, a ´evasão de cérebros´ e o ´fosso acentuado em relação aos países centrais, tendendo a aumentar´, o estudo é direto no diagnóstico comparativo nuclear entre Brasil e Argentina: ´vantagem argentina no campo nuclear´.Num cenário internacional ainda marcado pela oposição entre Estados Unidos e União Soviética (o comunismo desmoronaria em todo o Leste europeu em pouco tempo), os militares brasileiros consideraram como relevantes para estudos de projeção de cenários apenas quatro atores: Brasil, Argentina, Estados Unidos e União Soviética.Os militares brasileiros justificam o interesse pela observação detalhada sobre a Argentina ´por ser o país sul-americano com potencial e poder para se contrapor, de forma mais significativa, aos interesses brasileiros, além de apresentar ressentimentos históricos, de estar buscando sua autonomia estratégica - com respaldo na política nuclear - e de possuir privilegiada posição geoestratégica em relação ao Atlântico Sul e à Antártida´.MalvinasÉ preciso entender que a preocupação dos militares brasileiros com a Argentina é muito influenciada pelo fato de a guerra das Malvinas ainda ser, na época, recente na memória do continente. Cinco anos antes, os argentinos provocaram grande surpresa ao tentar garantir pela ocupação a posse das Ilhas Malvinas. Apesar de próximas geograficamente da Argentina, as Malvinas pertenciam ao controle da Inglaterra. Sem obter uma solução diplomática para o impasse, argentinos e ingleses entraram em guerra, vencida pelos britânicos.Assim, em outro ponto do documento, quando analisa quais devem ser os principais interesses estratégicos do Brasil no continente, aparecem listados em seqüência ´evitar a hegemonia nuclear argentina no continente´ e ´preservar o Atlântico Sul como zona de paz e cooperação´. Foi justamente nessa região do Atlântico Sul que Argentina e Inglaterra se confrontaram pela posse das Malvinas.

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