Área fiscal vai dar trabalho para nova equipe econômica

Agências de classificação de risco ameaçam tirar grau de investimento do País, alcançado em 2008

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2014 | 19h29

O próximo presidente do Brasil terá de resolver uma série de desequilíbrios na economia brasileira com o desafio de manter a baixa taxa de desemprego. Tanto Dilma Rousseff (PT) quanto Aécio Neves (PSDB) terão de lidar com problemas na área fiscal, buscar formas de retomar o crescimento econômico e de reduzir a inflação.

A questão mais urgente será na área fiscal. A economia brasileira está no radar das agências de classificação de risco e corre o risco de perder o grau de investimento, conquistado em 2008. Em setembro, a Moody’s passou a perspectiva da nota brasileira de estável para negativa. Em março deste ano, a Standard & Poor’s (S&P) reduziu o rating brasileiro para BBB-, o menor possível entre os países com grau de investimento.

O grau de investimento funciona como um selo de qualidade e mostra que o País tem capacidade de honrar suas obrigações. Caso o Brasil perca esse selo, alguns fundos que investem no País vão ter de deixar de investir por restrições legais, o que pode provocar saída de capital e, consequentemente, a desvalorização da moeda brasileira. “Há um superávit primário muito baixo, a dívida bruta está em trajetória de crescimento e, muito provavelmente, a menos que alguma coisa seja feita, o Brasil vai ser rebaixado pelas agências de risco, o que vai fazer com que o País perca o grau de investimento”, diz José Márcio Camargo, professor da PUC-Rio e economista da Opus Gestão de Recurso. “O primeiro desafio é evitar que o Brasil perca o seu grau de investimento nos próximos 12 meses.”

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O País enfrenta, na inflação, o represamento dos preços administrados, como o da energia e das tarifas de transporte público, além da resistência da inflação de serviços, que está rodando perto de 9% ao ano. No próximo governo, os preços administrados terão de ser reajustados e a alta dos serviços deve dificultar que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - a inflação oficial do País - convirja para o centro da meta de inflação, que é de 4,5%. No acumulado de 12 meses até setembro, o IPCA ficou em 6,75%.

O Brasil também tem desafios nas contas externas. Até setembro, o déficit nas transações correntes foi de 3,72% do PIB, segundo o BC, o que indica alta necessidade de financiamento externo da economia. 

Crescimento. Esses problemas na economia brasileira se agravam porque o País tem crescido pouco. Neste ano, o Produto Interno Bruto (PIB) deve ficar em 0,27%, segundo o relatório Focus, do Banco Central, que colhe as estimativas do mercado. Para 2015, a previsão é de um crescimento de apenas 1%. “Existe uma série de contas que estão numa situação muito esticada. E tudo isso numa economia que vai crescer zero”, afirma Armando Castelar coordenador de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas. “E, se tentar crescer, tudo isso vai ficar mais complicado. Hoje, as importações de bens de capital estão caindo porque o investimento está em queda. Se o crescimento voltar, significa que vai aumentar a importação e o déficit vai ficar maior.”

As mudanças na macroeconomia também terão de ser acompanhadas por uma agenda de reformas para tornar a economia mais competitiva. “Para o Brasil voltar a crescer mais de 3% é preciso caminhar com as reformas”, diz Juan Jensen, sócio da Tendências Consultoria Integrada. Na lista das reformas prioritárias, estão a tributária e a da previdência. 

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