Reprodução / Youtube Presidência da República
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Arcebispo de Curitiba contraria CNBB e defende padre que ofereceu mídia 'positiva' a Bolsonaro

Dom José Antônio Peruzzo afirmou em programa apresentado por Reginaldo Manzotti, estrela da música católica, que sua intenção não era oferecer apoio em troca de verba, mas apenas apresentar um pleito legítimo

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2020 | 13h01

BRASÍLIA - O arcebispo Metropolitano de Curitiba, dom José Antônio Peruzzo, endossou pedido ao presidente Jair Bolsonaro para que o governo amplie o alcance de rádios e TVs de inspiração católica, com a liberação ágil de outorgas de radiodifusão. Conforme revelado pelo Estadão, o padre Reginaldo Manzotti, ligado ao bispo, afirmou ao presidente durante reunião com uma ala da Igreja que os veículos de comunicação religiosos são uma “potência” e desejam “caminhar junto” ao governo, em sinal de apoio. Manzotti se dispôs a apresentar uma proposta “positiva e isenta”, o que poderia servir como contrapeso à exposição “negativa” que desgasta a imagem de Bolsonaro.

"O seu pedido (de Manzotti) foi para que houvesse mais atenção aos projetos católicos de radiodifusão, também televisão, mas dentro de um programa explícito e normal. Não houve apoio em troca de verbas, foi apresentar pleitos dentro de um quadro de legitimidade, colocada aos olhos do mundo", disse o arcebispo nesta quarta-feira, dia 10, ao vivo, durante o programa "Experiência de Deus", apresentado por Manzotti e veiculado na TV e nas rádios ligadas à Evangelizar É Preciso, associação liderada pelo padre-cantor.

"Foi tão somente uma apresentação legítima do segmento das rádios e TVs”, resumiu Peruzzo em uma carta obtida pelo jornal, datada de segunda-feira, dia 8, e enviada por Whatsapp a integrantes do clero. Tanto o bispo quanto o padre a ele subordinado argumentaram ser “necessário” manter diálogo com o governo e afirmaram que partiu do Palácio do Planalto um convide imediato para que apresentassem “demandas” das rádios e TVs católicas.

O arcebispo disse que deu aval ao encontro e orientou o padre Manzotti sobre como se portar com Bolsonaro. Na carta, ele foi além: revelou ter ressalvas ao presidente e temer “retaliações”.

“Eu não tinha motivos para interpor objeções, afinal chamar para conversar... Não há nada de extraordinário, nem de errado. Vivemos tempo de grande polarização política, uns têm apreço pelo presidente e outros não tanto e muitos não tem nada. Conversar não é aderir, conversar não é concordar”, disse o bispo, na rádio e na TV.

“Ponderei a ele (Manzotti) que não gosto nem um pouco do atual presidente. Todavia, no segmento das comunicações, quase tudo depende de autorização governamental. Hoje, se não forem mantidos canais de diálogo, multiplicam-se severamente as retaliações. Foi assim também no passado, independentemente dos governos e grupos partidários”, escreveu. "Minha recomendação foi que participasse da reunião, mas que fosse cuidadoso no que falaria. Que não houvesse nem lisonjas nem hostilidades da parte do padre. As bajulações ficaram por conta dos parlamentares, mas não dos diretores das emissoras católicas, a não ser algumas expressões folclóricas de um tal que desconheço.”

O Executivo desenvolve políticas, regula e fiscaliza o setor da radiodifusão, além de ser anunciante nas diferentes mídias. Com a recriação do Ministério das Comunicações, ocorrida também nesta quarta, o ministro Fábio Faria (PSD-RN) concentrará o relacionamento com as rádios e TVs católicas, nos dois aspectos.

Videoconferência

A videoconferência ocorreu em 21 de maio. Nela, outros padres defenderam interesses particulares, como o de investidores estrangeiros, fizeram reclamações de teor pessoal e pediram, para superar dificuldades de arrecadação das TVs, mais “apoio” da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom), órgão agora extinto que destinava verbas estatais milionárias por meio da veiculação de campanhas publicitárias. No ano passado, foram R$ 2,1 milhões para TVs de inspiração católica.

Um dos mais padres mais populares do País e ligado ao movimento carismático, Manzotti participava pela segunda vez de uma videoconferência com Bolsonaro e pediu um “olhar atencioso” do presidente à rede de radiodifusão da Igreja. “Nós somos uma potência, nós queremos estar nos lares, ajudar a construir esse Brasil e, mais do que nunca, o senhor sabe o peso que isso tem, quando se tem uma mídia negativa. Nós queremos estar juntos”, explicou o padre, depois de citar o desejo de apresentar ao governo uma proposta de comunicação “positiva e isenta”.

A videoconferência provocou intensa repercussão negativa entre os católicos. A pressão compeliu a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e ordens de missionários, como os redentoristas e jesuítas, além de organismos vinculados ao clero, todos ausentes da reunião presidencial, a rechaçarem pedidos ao governo em troca da promessa de apoio com “mídia positiva”, vinda de sacerdotes, leigos e deputados da Frente Parlamentar Católica. Em nota pública, a CNBB, por meio da Pastoral da Comunicação, considerou que houve “barganha”.

Dom Peruzzo reagiu em defesa de Manzotti, considerado um fenômeno midiático que arrebata multidões para as missas show e para sua associação. O bispo classificou a reportagem do Estadão como “inteligentemente malévola”, especulou que teria sido “encomendada” e criticou a CNBB, da qual faz parte. Ele é presidente da Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética, bispo referencial da Pastoral da Pessoa Idosa e vice-presidente da CNBB regional Sul 2 (Paraná).

“Foi uma nota infeliz. Foi detrativa. Embora especialistas, tomaram como veraz uma reportagem viciada. E puseram-se a falar que a Igreja não aceita barganhas. É uma pena que chamaram de barganha o que e quem nada barganhou”, afirmou na carta informal, datada de segunda-feira, dia 8, e assinada por Peruzzo.  “Impressiona o grau de desfiguração intencionada dos fatos. Vivemos tempos em que parece natural sofisticar a maldade.”

Após enaltecer a “lealdade” do bispo, que rebateu seus pares, Manzotti também reagiu à CNBB,  aventou “notícias equivocadas” e insinuou ser vítima de notícias falsas, as fake news (expressão em inglês). “Filhos e filhas, não é a primeira vez que sou alvo de fake news e infelizmente não será a última”, disse Manzotti em seu programa, após quatro dias em silêncio. “Minha missão como sacerdote é apartidária, sem partido, mas em favor da paz. Uma meia-verdade também é fake news, e por isso lamento que mesmo sem terem visto o vídeo e o que falei emitiram notas de repúdio. Quem me conhece sabe que eu não barganho, sou sempre a mesma pessoa onde quer que eu esteja.”

Debandada

Pressionados por fiéis e associados que ameaçavam abandonar e cortar contribuições à obra da Evangelizar, d. Peruzzo e o padre Manzotti apelaram para que continuem “acompanhando” a TV e as rádios da associação, uma forma de evitar a fuga de doações financeiras. 

“Cuidem-se para que notícias desvirtuadas não criem rupturas com aquilo que está sempre aí na sua casa ou no seu carro a falar de Jesus Crito, com quem faz isso melhor. Gostaria que o amigo ouvinte caminhasse tranquilo, ouvisse a evangelizar tranquilo”, disse o arcebispo.

“São vocês associados que nos dão condições de manter esses canais. Nós não dependemos de outras verbas, dependemos de vocês associados, e por isso sou grato. Minha luta não é por vaidade pessoal, mas um mandado de nosso senhor: ‘Ide evangelizar em todos os povos’. E basta ver a obra da Evangelizar, que é muito maior que o padre Manzotti”, afirmou ele, fazendo referência a si mesmo. 

Procurados insistentemente pelo Estadão, nenhum dos dois atendeu a reportagem para explicar o motivo da oferta ao presidente de mídia “positiva” para “caminhar junto” ao governo, acompanhada da solicitação por mais autorizações para explorar canais e frequências públicas de radiodifusão.

 

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