Arapongas da Abin grampearam políticos

Monitoramento ocorreu durante a primeira etapa da Satiagraha e aponta diálogos entre Heráclito Fortes e o lobista Humberto Braz; o senador nega

Fausto Macedo, O Estadao de S.Paulo

09 de julho de 2009 | 00h00

Relatos de arapongas da Agência Brasileira de Inteligência (Abin)mostram que autoridades com prerrogativa de foro, entre "políticos e ministros do Poder Judiciário", caíram mesmo na malha de grampos telefônicos da Operação Satiagraha - investigação contra o banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity. O monitoramento ocorreu durante a primeira etapa da Satiagraha, sob comando do delegado Protógenes Queiroz.Detalhes da interceptação foram revelados por Sonia Maria Pagioro Cavalcante de Almeida e Eloir Vetterlein, agentes da Abin, em depoimento ao general de divisão João Roberto de Oliveira, que presidiu a comissão de sindicância instalada pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República para investigar supostas irregularidades na parceria Abin/Polícia Federal. Os depoimentos confirmam suspeitas sobre espionagem ilegal na Satiagraha.Quando a sindicância foi concluída, em dezembro, o general Jorge Armando Felix, ministro chefe do GSI, encaminhou cópias dos depoimentos de Sonia e Eloir à Procuradoria Geral da República "para conhecimento e providências que entender cabíveis". O ministro destacou o conteúdo das declarações que vão das páginas 465 a 469 (Sonia)e da 796 a 798 (Eloir).Sonia declarou: "Que ouviu em uma ocasião uma conversa citando o senador Demóstenes Torres; que ouviu diálogos do senador Heráclito Fortes e supostamente de ministros do Poder Judiciário; que o assunto era acerca de operações financeiras; que ouviu diálogos de pessoa, provavelmente um lobista, que se articulava intensamente com ministros do Poder Judiciário e políticos, essa pessoa se chamava Guilherme."Eloir Vetteerlein contou que se lembra de diálogo entre Humberto Braz (lobista de Dantas condenado por corrupção ativa) e o senador Heráclito Fortes. "Nas transcrições de conversas de Braz com o senador Heráclito, o parlamentar cobrava remuneração pecuniária pela aprovação de projetos de interesse do grupo; que se recorda de uma ligação onde pelo menos três vezes o senador fazia a cobrança; o senador dizia mais ou menos o seguinte: ?Eu quero o meu, trabalhei prá isso?; que Humberto dizia que iria falar com o ?homem?; que havia presunção de que tratar-se-ia do sr. Daniel Dantas."Sonia acrescentou: "Que se recorda de diálogo de político famoso onde esse descrevia acidente de avião sofrido por ele, acompanhado de outros políticos, embora não tivesse gerado consequências mais graves; que os assuntos tratados nas degravações em sua maioria se referiam a transações financeiras envolvendo a Brasil Telecom, fundos de pensão, bancos, notadamente o Opportunity."Eloir e Sonia integraram o pelotão de 84 arapongas da Abin recrutados por Protógenes para o cerco a Dantas. Em 2 de junho, o então procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza determinou o arquivamento dos autos relativos aos depoimentos. "A instauração de procedimento investigatório pressupõe a indicação de fato concreto, em tese delituoso, de autoria de pessoa identificada, sem o que carece a investigação da necessária justa causa."Sobre o senador Heráclito Fortes (DEM-PI), o procurador assinalou que "a frase ?eu quero o meu, trabalhei pra isso", dissociada do contexto em que se desenvolveu o diálogo, não autoriza à conclusão de que o parlamentar estivesse cobrando vantagem indevida ao seu interlocutor por eventual atividade que tenha exercido em decorrência da função parlamentar"."Nunca tive um diálogo telefônico com esse Humberto Braz", rebateu o senador. "Nunca vi canalhice tão grande. É uma irresponsabilidade. Os arapongas querem aliviar a posição dos colegas que gravaram o senador Demóstenes Torres e o ministro Gilmar Mendes. Vi uma única vez esse Braz e não simpatizei. Se acharem de fato conversa minha com ele eu renuncio."

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