Araponga aposentado confirma participação na Satiagraha

É ilegal participação de funcionário aposentado na operação. Defesa pode pedir nulidade do inquérito

Vannildo Mendes, de O Estado de S. Paulo,

08 de setembro de 2008 | 20h02

Em depoimento sigiloso de mais de duas horas para os delegados Rômulo Berredo e William Morad, no sábado, dia 6, na Polícia Federal, o araponga aposentado Francisco Ambrósio do Nascimento confirmou ter participado da investigação da Operação Satiagraha, a convite do delegado Protógenes Queiroz, titular do inquérito. Servidor aposentado da Aeronáutica, Ambrósio nunca foi funcionário da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).   Veja Também: ESPECIAL:entenda o escândalo dos grampos Especial explica a Operação Satiagraha  Multimídia: As prisões de Daniel Dantas      Ele disse que já colaborou em outras investigações da PF, algumas a convite de Protógenes, mas negou que tenha feito grampos ilegais contra o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, parlamentares ou jornalistas, como foi publicado na imprensa neste fim de semana.   Longe de atenuar a crise, porém, a notícia trouxe um agravante e a PF já trabalha com a hipótese de refazer a operação Satiagraha. Sendo Ambrósio aposentado, sua presença no inquérito é ilegal. Se estivesse na ativa, sua participação seria defensável, uma vez que a lei ampara a requisição de servidores por um delegado.   A PF vai consultar a Justiça e o Ministério Público para evitar que os erros da primeira fase do inquérito beneficiem o grupo criminoso desbaratado na operação, que seria chefiado pelo banqueiro Daniel Dantas, dono do grupo Opportunity.   A nulidade do inquérito, segundo um delegado com acesso à investigação, será fatalmente requerida pelos advogados dos réus, por vício de prova. Principal suspeita de ter patrocinado o grampo contra o presidente do STF e outras autoridades, a Abin informou nesta Segunda-feira que Ambrósio não pertence a seus quadros.   Membro da comunidade de informações, Ambrósio é egresso da Aeronáutica e serviu ao órgão central da repressão política do regime militar, o Serviço Nacional de Informações (SNI). Com a extinção do SNI, em 1990, ele foi lotado no órgão sucessor, a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), no qual se aposentou em 1998.   Designado para apurar a denúncia de grampos ilegais contra autoridades no curso da Satiagraha, Berredo e Morad decidiram radicalizar nas investigações para demonstrar que nada ficará sem resposta. Eles determinaram uma auditagem no Guardião, poderoso equipamento de grampos da PF, capaz de interceptar centenas de ligações simultâneas, utilizado na operação por Protógenes e arapongas recrutados por ele.   Decidiram também requisitar as maletas de varredura antigrampo, adquiridas pela Abin, alvo de denúncia do ministro da Defesa, Nelson Jobim, de que estariam sendo usadas ilegalmente para fazer escutas clandestinas. Como a primeira iniciativa não foi atendida, a PF vai insistir no envio dos equipamentos e, caso perceba alguma resistência, não descarta o uso da via legal. Ou seja, pode apelar para um pedido judicial de busca e apreensão dos equipamentos.   Deflagrada em julho passado, a Satiagraha resultou na prisão de Daniel Dantas, do investidor Naji Nahas, do ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e outro 13 acusados de pertencer a uma quadrilha de lavagem de dinheiro. Espião experiente, Ambrósio é suspeito de estar por trás da escuta de 18 senadores, 26 deputados, ministros do governo Lula e das mais altas autoridades do Judiciário, segundo reportagem publicada pela Revista Isto É, no último final de semana.

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