Jack Guez/AFP
Jack Guez/AFP

Árabes alertam que mudança de embaixada em Israel 'reduz chance de paz'

Embaixadores brasileiros em mais de dez países serão convocados para reuniões com governos locais; objetivo é alertar para 'caminho perigoso'

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2018 | 14h05

GENEBRA - A Liga Árabe fará uma ofensiva para pressionar o Brasil a repensar a ideia de modificar sua embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, num ato que reconheceria a cidade Santa como capital de Israel. 

O Estado apurou que, numa reunião da entidade no Cairo nesta semana, chanceleres chegaram à constatação de que uma eventual mudança de postura do Brasil, seguindo o mesmo caminho de Donald Trump, poderia abrir um “caminho perigoso” para que o mesmo gesto seja adotado por outros países, até agora hesitantes. 

Ao Estado, o embaixador palestino na ONU, Ibrahim Khraishi, revelou que a Liga Árabe decidiu convocar todos os embaixadores brasileiros nas capitais dos países árabes para pedir explicações e ainda alertar aos representantes do Itamaraty sobre as implicações que o gesto poderia ter. 

“O centro do argumento será a ilegalidade de uma mudança da embaixada”, disse. Assim, embaixadores do Brasil na Argélia, Líbano, Arábia Saudita, Catar, Sudão e mais de dez países receberão instruções nos próximos dias para irem até os respectivos Ministérios de Relações Exteriores para reuniões. Na diplomacia, a convocação de um embaixador é um gesto de protesto.

Num comunicado na terça-feira, as autoridades palestinas indicaram que o tom da conversa incluiria ainda um alerta de que medidas “políticas, diplomáticas e econômicas” poderiam ser tomadas, caso o Brasil siga com a ideia da mudança da embaixada. 

Por enquanto, porém, Khraishi garantiu que nenhuma retaliação será adotada e que o objetivo é mesmo contar “com a sabedoria” do governo brasileiro. 

Numa carta enviada a Jair Bolsonaro após a reunião desta semana, a Liga Árabe ainda o alerta de que "tomar tal linha iria não apenas ferir aos interesses árabes e palestinos, mas também reduzir significativamente as chances de uma paz justa, duradoura e completa entre palestinos e israelenses”.

Os árabes querem convencer o Brasil de que o governo estará violando resoluções da ONU ao agir neste sentido. Essas resoluções, inclusive apoiadas em 2017 pelo governo de Michel Temer, condenava qualquer mudança de local da embaixada para Jerusalém. A pressão ainda continuará em Brasília. Todos os embaixadores de países árabes foram instruídos a protestar contra a decisão e, em reuniões no Itamaraty, insistir na “ilegalidade” do ato. 

O gesto da Liga Árabe ocorre às vésperas do desembarque do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, ao Brasil. O israelense viaja para a posse de Bolsonaro e, antes mesmo de assumir, o presidente eleito se reunirá com o primeiro-ministro, no Rio de Janeiro. Na agenda, segundo o Estado apurou, a pressão da parte do israelense para que a promessa de campanha de mudar a embaixada seja também, agora, um projeto de governo. 

Mourão

Em meio à polêmica, o vice-presidente eleito, Hamilton Mourão, recebeu, na terça, integrantes da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira e postou uma foto em sua conta no Twitter. “Conversamos sobre as possibilidades de comércio e investimentos no Brasil dos 22 países árabes representados pelo órgão”, escreveu Mourão. /  COLABOROU LU AIKO OTTA

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