Ara''ba espera o tempo passar

Ara?ba está sentenciada por sua etnia: morrerá sozinha, num pequeno galpão de chão batido, acompanhada no máximo por brancos, funcionários da Fundação Nacional do Índio (Funai). Inicialmente por opção e depois pelas circunstâncias, Ara?ba viveu a maior parte da vida isolada dos demais índios zo?é na área Cuminapanema, no norte do Pará. Agora, quando se aproxima dos 80 anos, vive abandonada seus últimos dias. Ara?ba passa as horas numa rede de palha feita pelas próprias mãos e ao lado de uma fogueira alimentada toda noite. Seu único relacionamento com os índios da etnia é precário. Periodicamente, recebe palha retirada da floresta e algodão. Com o material, Ara?ba tece redes e as troca depois por comida - beiju, farinha e castanhas, basicamente - levados pelos zo?é. Sem esse último resquício de convivência e sem os afazeres, provavelmente seria vencida pelo tédio. Até chegar a esse ponto, Ara?ba viu de perto cinco tragédias. Assim que se casou, foi morar com o marido numa oca isolada das demais aldeias. Os dois viveram assim boa parte da vida. Não tiveram filhos.Até que um dia seu marido morreu. Sozinha, ela passou a perambular pela floresta à procura de um lugar para morar e de alguém que lhe assistisse. Encontrou numa aldeia próxima o índio Soarim, que a levou para a própria oca. Lá, Ara?ba teria a companhia de Soarim, de sua mulher Dig e sua mãe. Mas a família aos poucos foi se desfazendo. A primeira a morrer, de causas naturais, foi a mãe de Soarim. As duas tinham a mesma idade e tornaram-se amigas no tempo em que conviveram. "Meu coração dói", lamentou no dia do enterro. Ara?ba permaneceria sob a proteção de Soarim e de Dig. Em 2007, Soarim estava no alto de uma árvore, tentando retirar um filete usado para produzir as flechas e lanças que os zo?é usam para caçar. Com o facão, batia seguidamente no caule. O barulho atraiu uma onça que passava perto. Quando desceu da árvore, Soarim foi atacado. Morreu quase instantaneamente. Ara''ba ainda tinha Dig. Mas por pouco tempo. Sentindo a perda do marido, Dig cortou a própria garganta com um facão. Foi a quarta morte no caminho de Ara?ba. Ela precisava buscar outra companhia, mas a única que se dispôs a acolhê-la, Deaby, morreu depois. Definitivamente só, Ara?ba foi adotada pelos funcionários da frente de proteção dos zo?é. Ali permanecerá até morrer sob cuidados de um médico e alimentada pelos funcionários da Funai. Sua saúde é perfeita. Sua memória idem. Ao final da vida e depois de tantos percalços, Ara?ba poderá ter ao menos uma alegria. Será submetida a uma cirurgia de catarata no posto da Funai. "Queremos que ela enxergue bem ao final da vida", disse João Rabelo, o funcionário da Funai que a acolheu. Enquanto espera, Ara?ba permanece sozinha, acompanhada somente por um mico de estimação, amarrado pelo pescoço para também não deixá-la.

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