Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Aproximação do Planalto com Centrão é vista com reservas por bolsonaristas

As críticas ao chamado 'toma lá, dá cá' ajudaram a eleger Bolsonaro e parlamentares de sua base

Jussara Soares e Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2020 | 19h42

BRASÍLIA  - A aproximação do presidente Jair Bolsonaro com lideranças do Centrão é vista com reservas tanto por aliados do governo quanto por integrantes das legendas recebidas pelo Palácio do Planalto nos últimos dias. De um lado, bolsonaristas receiam serem acusados de ceder à “velha política” e, por outro, caciques das siglas temem ser traídos nos acordos com os quais Bolsonaro vem acenando nas conversas em seu gabinete.

Parlamentares da base do governo evitam comentar os encontros com os partidos do centro, justificando desconhecer quaisquer negociações. Nos bastidores, no entanto, aguardam uma sinalização do presidente para calibrar o discurso, caso a distribuição de cargos em troca de apoio no Congresso se concretize. As críticas ao chamado “toma lá, dá cá” ajudaram o presidente e os parlamentares de sua base serem eleitos.

Após uma semana de conversas com líderes, Bolsonaro, no domingo, 19, voltou a criticar a “velha política” em um discurso para apoiadores que pediam uma intervenção militar diante do Quartel General do Exército. “Nós não queremos negociar nada. Queremos é ação pelo Brasil”, disse.

Para interlocutores do Planalto, o presidente indica que poderá adotar dois discursos: um de gabinete, em que buscará aumentar aliados no Congresso, e outro para seus apoiadores que se inflamam com suas falas mais radicais e sustentam a defesa do governo nas redes sociais. Com pedidos de impeachment protocolados na Câmara e alvo de “panelaços” durante a pandemia do coronavírus, Bolsonaro, na avaliação de auxiliares palacianos, não pode abrir mão de nenhum dos dois se quiser evitar desgastes que possam atrapalhar o projeto da reeleição.

Neste momento, o governo contabiliza na Câmara o apoio de 70 parlamentares. Ao se aproximar do Centrão, o Planalto calcula que pode atrair pelo menos 130 deputados. Para conquistar a maioria dos 513 integrantes da casa nas votações, terá que seguir negociando o apoio no varejo a cada votação.

Ter a maioria também é fundamental para que o governo consiga emplacar o sucessor de Rodrigo Maia (DEM-RJ) na presidência na Câmara. Nos bastidores, Bolsonaro tem incentivado as candidaturas do líder do PP, Arthur Lira, e de Marcos Pereira (SP), presidente do Republicanos, partido em qual dois de seus filhos políticos se filiaram recentemente.

Neste momento, ter um aliado no comando da casa é considerado fundamental nos últimos dois anos de governo. Com esta mexida no xadrez político, Bolsonaro quer neutralizar o DEM, de Maia, e o PSDB, do governador de São Paulo, João Doria, dois de seus principais adversários políticos. Os dois partidos, na visão dele, são seus principais adversários em 2022.

Para colocar sua estratégia em curso, Bolsonaro se favoreceu da crescente irritação dos partidos de centro contra Maia. Para alguns líderes, o presidente da Câmara buscou ser protagonista da crise do coronavírus falando por todos. Além disso, caiu a ficha de que, passada a pandemia, Maia não terá mais do que três meses na Presidência da Câmara, o que esquentou a corrida para sua sucessão nos bastidores.

Com isso, o governo começou a procurar o Centrão, cujos líderes afirmam estar avaliando com “parcimônia” os acenos do presidente. Até agora já foram recebidos no Planalto os líderes do PP, Repubicanos, PL, PSD e MDB.  Outras lideranças, como o presidente do Solidariedade, Paulinho da Força (SP), manteve contato por telefone com integrantes do governo.

Nas conversas, segundo relatos feitos ao Estado/Broadcast, foram oferecidos alguns cargos que já tinham sido prometidos no ano passado, mas não foram entregues, como é o caso do Banco do Nordeste ao PL.  Nas negociações, também foi cogitado entregar ao PL o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Ao Solidariedade foi oferecido o Porto de Santos.

Do lado dos partidos, não há ainda um acordo fechado com o governo. Líderes estão avaliando com cautela os acenos do Planalto. O receio é que Bolsonaro não honre as promessas e volte a atacar o Congresso na primeira oportunidade. Na semana passada, Rodrigo Maia reclamou da forma como o Parlamento é tratado pelo governo. “Você entra por uma porta e quando sai leva um coice”, disse.

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