''Aprendemos na carne o valor da democracia''

Dilma Rousseff, hoje a mais alta autoridade do País torturada durante o AI-5, diz que os porões contaminaram o regime

Rui Nogueira, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

Quarenta anos atrás a estudante mineira Dilma Vana Rousseff Linhares ganhou um presente macabro e antecipado de aniversário. Ela completava 21 anos e tomava café da manhã na lanchonete Torre Eiffel, na Rua Espírito Santo, Belo Horizonte, quando foi avisada por um colega da Faculdade de Economia que, na noite anterior, 13 de dezembro de 1968, o governo baixara o AI-5.A filha de emigrantes búlgaros (ministra-chefe da Casa Civil do governo Lula desde junho de 2005), é testemunha do efeito violento do AI-5 naquela geração. Dilma escolheu o caminho da luta armada para fazer oposição aos generais - integrou a VAR-Palmares -, participou de assaltos a bancos e quartéis, acabou sendo presa (1970-1973) e torturada.Como assessora número 1 do presidente, quase uma "primeira-ministra", Dilma é hoje a mais alta autoridade do governo a ter sofrido nas mãos dos torturadores nos porões da ditadura.Refletindo a experiência passada à luz da vida democrática de hoje, Dilma tenta sintetizar a herança daquele período: "A minha geração aprendeu com a dor na carne a importância da democracia." Veja a seguir o depoimento que a ministra concedeu ao Estado na quinta-feira sobre os 40 anos do AI-5:"O AI-5 alijou a minha geração da política, proibiu-a de fazer discussões, exercitar a divergência, criticar, de, enfim, pensar politicamente pela sua cabeça. A juventude daquela época vinha de um processo acelerado de politização, que não tem as características do momento que vivemos hoje, numa democracia. As coisas hoje são mais lentas, mas, na minha época, a política era muito acelerada. Os estudantes faziam política e viam trabalhadores fazer as primeiras greves, de Osasco e Contagem, pós-golpe de 64.O pré-AI-5 é um momento em que aconteciam todas as modificações. Havia uma efervescência que se manifestava mais fortemente na cultura, com o Arena, os shows. Isso tudo era uma ponte com o pré-64, uma efervescência absolutamente incompatível com o pensamento político dominante do governo. O AI-5 chega e é o fim de todas as liberdades. Desde a mais primária, o habeas-corpus. O Congresso se torna absolutamente lateral, o AI-5 emascula o Legislativo.Com a decretação do AI-5, sentimos que qualquer opositor à ditadura corria grande risco. Lembro que na véspera do AI-5 todo mundo dizia que o fechamento do regime viria depois que a rainha Elizabeth (da Inglaterra) deixasse o Brasil. Passei a dormir fora de casa por achar que seria presa depois que a rainha fosse embora. Mas como isso não aconteceu logo, eu voltei.Sentimos que caiu sobre o Brasil uma nuvem negra e se especulava sobre toda sorte de possibilidades. Desde a idéia de que o Brasil viraria uma grande Indonésia, com pressão e mortes até o fechamento do Congresso. Foi esse clima que moldou a consciência política de uma geração inteira. Isso ocorre em 1968 e vai num ritmo de definição por todo ano de 1969. Estabeleceu-se um imenso descrédito na possibilidade de luta política legal.No pré-64 todo mundo acreditava que haveria avanços democráticos sucessivos, que o País seria transformado, que as reformas seriam feitas e seria construída uma nação desenvolvida. Essa história de que todos pensavam num Estado marxista-leninista era conversa de generais, fazia parte da acusação de que o governo Jango (João Goulart) instalaria uma república sindical. Os estudantes, na rua, com idades entre 16 e 20 e poucos anos, não tinham muito claro essa idéia de Estado marxista-leninista. A reforma era a visão predominante. O golpe de 64 passa a mensagem de que a democracia seria uma democracia para poucos. E ficou patente o processo conservador e concentrador de renda.Quando se instaurou socialmente a ditadura, o pior efeito foi a descrença na possibilidade da democracia. E começa a haver uma grande crítica aos chamados reformistas, ao pessoal que achava que podia mudar o Brasil por meios pacíficos. Mas antes do AI-5, e como a vida é mais complexa, há um período, o pós-64, em que se fazem grandes passeatas, ainda se fazia política, reclamava, protestava. Quando fecha por completo, vem a sensação de impotência diante da ditadura.Hoje, valorizamos a democracia. Quem respira não fica dizendo todos os dias que o ar é ótimo. Você está simplesmente acostumado a respirar. Hoje, a democracia é que nem o ar que a gente respira, mas, na minha geração de estudante e luta política não era assim. Vivi uma época em que a minha existência era simplesmente negada. Não era só o processo de repressão, tortura e morte, mas também o não reconhecimento de um estado de exceção, como essa coisa de não haver preso político no Brasil estando eu numa cadeia rodeada de presos políticos.A sociedade estava proibida de reconhecer o estado de exceção e isso gera fenômenos como o que o jornalista Elio Gaspari descreve, o fenômeno do porão. A instituição (Exército) diz que nada tem a ver com o porão, não reconhece a situação, mas, estranhamente, a instituição é contaminada pelo que "não existe", o porão. A verdade é que houve uma relação dos setores privados com isso. Asseguro que a comida que comíamos na prisão, a quentinha fornecida aos presos políticos que não existiam, era fornecida por uma empresa privada. A Operação Bandeirantes (Oban, que estruturou a repressão) teve financiamento privado.O pós-AI-5 contamina tudo, corrói o Estado. O mesmo que acontece em Guantánamo e aconteceu am Abu Ghraib, as instituições corrompidas. A tortura contamina tudo e ninguém, depois, protege essas cosias impunemente. Aquilo que Hannah Arendt dizia: você não mata 6 milhões de judeus sem cumplicidade. O AI-5 instaura esse processo. Temos de entender que, desse período, herdamos um apoliticismo que é muito reservado na cultura brasileira. O que é bom é técnico; o ruim é o político. Isso deriva da ditadura, que precisou desconstruir a política como instância legítima e democrática para a disputa e a formação dos consensos. Foi preciso acabar com a política e, para isso, criou-se uma instância tecnocrática, que era justa, correta, que desmoralizava a política e dizia que ela era algo ruim, corrupta e perversa. Esse é um processo que, de certa forma, ainda mantemos hoje. Muitas vezes me perguntam: "A senhora é técnica, não é?!" Como se fosse algo justo ter de ser técnico para assumir cargo no governo. Sempre conto uma historinha a propósito disso: ao final de uma reunião, na Bolívia, num governo passado (antes de Evo Morales), perto do final de ano, perguntei ao ministro das Minas e Energia se ele ia para casa e onde ele era, se em La Paz ou Sucre. Ele me respondeu que sim, que ao final da reunião ia para casa... em Miami. "Eu moro em Miami, sou um técnico."Quem não tem raiz no país, quem não defende pelo menos um dos lados possíveis do debate, não tem compromisso com o país. A minha sorte tem de ser a sorte do país. Tem de ter lado, tem de fazer política no país. Há sempre escolhas a fazer. Um governo pode ser tudo, menos um governo de tecnocratas. Até porque nunca houve, literalmente, governo de tecnocratas. Os governos dos ditos técnicos não eram neutros, serviram a alguém, fizeram uma política conservadora, elitista e autoritária.Hoje, 40 anos depois do AI-5, podemos dizer que o nosso processo democrático é muito mais profundo do que a gente pensa. Quantas eleições já fizemos... Somos, talvez, a democracia mais estável entre os países emergentes, uma conquista imensa - até porque a minha geração tem clareza do que significou o outro momento. Nós aprendemos, da pior forma possível. As novas gerações estão aprendendo da melhor forma possível, que é exercendo a democracia. Naquele tempo, fazer greve era uma tarefa difícil, a greve comprometia o Estado. Onde já se viu! A minha geração aprendeu na carne a importância de democracia. E tem de brigar pela institucionalização da democracia. A luta na clandestinidade não é legal.Naquela época, de 1969 a 1972, tivemos poucos caminhos. E foi uma época que produziu os "arrependidos", uma das coisas mais graves feitas pela ditadura, que foi obrigar algumas pessoas a irem à TV e se declararem arrependidas. Isso não se perdoa."

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