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Aposta perdida

Imprevisibilidade das eleições ressuscita apreensão sobre economia

William Waack, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2018 | 05h00

A equipe econômica que assumiu depois do desastre dos governos do PT é de primeira linha, mas a aposta feita pelo grupo não deu certo. O cálculo assumia poucas condições políticas para grandes lances, mas também que um pouco de cuidado com as contas públicas, um pouco de reforma trabalhista, um pouco de privatizações, um pouco de microgerenciamento de regras e tributos fariam boa diferença – principalmente com a esperada queda dos juros e da inflação.

Melhoraria um pouco o ambiente de negócios, o desemprego recuaria um pouco, o cenário internacional seria pouco ameaçador e a retomada de exportações ajudaria a impulsionar a economia. As pessoas se sentiriam menos angustiadas, especialmente na hora de tomar decisões de consumo e/ou investimento. A atmosfera política antes de uma eleição decisiva talvez ficasse menos carregada, haveria até espaço para campanhas discutirem como fazer o País crescer.

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Notem que todas as premissas do ponto de partida da aposta da equipe econômica se cumpriram – menos, crucialmente, o fim da angústia e o início de um bom debate sobre rumos. E então vêm a subida do dólar, as taxas decepcionantes do nível de emprego, o anúncio de mais um estouro no caixa das contas públicas e confirma-se a percepção de que o atual governo (nem precisamos mais discutir as causas) tem escassas possibilidades de aprovar matérias que envolvam articulações e votações complexas.

É importante registrar aqui que nem a vulnerabilidade e fragilidades políticas do governo, nem a demora em aprovar reformas e muito menos as oscilações do dólar são fatores inesperados. Ao contrário, constam de relatórios periódicos elaborados por consultorias e agências de análise de risco nacionais e estrangeiras. Em outras palavras, eram pontos no radar de todo mundo que tenta prever para onde vai a economia. Mas eis que surge então a “surpresa”: o inegável recrudescimento, nos últimos dias, de um ambiente de apreensão e considerável ceticismo frente ao futuro da economia brasileira.

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Esse mau humor é resultado direto da imprevisibilidade das eleições. Contudo, esse estado de espírito não expressa simplesmente a dúvida sobre quem será presidente depois do pleito. Os temores bem pouco subjetivos podem ser resumidos quase num trocadilho: candidatos reformistas com plataformas econômicas conhecidas não aparecem bem nas pesquisas e empolgam até agora pouca gente. Os candidatos que se destacam mais nas pesquisas neste momento até exibem porta-vozes e/ou frases de efeito sobre o fim do populismo fiscal e intervencionismo que ajudaram o Brasil a afundar em recessão, mas pode-se confiar neles?

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Há sérias dúvidas se o empenho em dizer o que agrada a agentes de mercado prosseguiria além do que é dito em conversas e apresentações coreografadas. E qual é o cacife no Congresso para gente sem partido forte, na hora de governar? O que parece estar pesando “repentinamente” nesse conjunto de percepções do momento é mesmo o tradicional pano de fundo das mazelas da nossa economia – que precisaria ser modernizada, mais aberta, mais produtiva, mais competitiva, precisando de muito mais investimento.

Tudo agravado por uma desconfortável indagação: seja quem for, vai pegar um País governável? Virou consenso a constatação de que todas as questões importantes ficaram para 2019 – no momento, porém, não há qualquer certeza sobre qual força política terá de lidar com desafios cujo atraso em enfrentá-los só os torna mais pesados. Talvez essa apreensão que voltou a nos assombrar seja a coisa mais salutar dos últimos dias.

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