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Aposta do Brasil: Putin não invadirá a Ucrânia, porque ganha com pressão e perderia com guerra

De malas prontas para Moscou, governo brasileiro avalia que o presidente russo Vladimir Putin não chegará ao ponto de invadir a Ucrânia

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2022 | 03h00

Na avaliação – ou aposta – do governo brasileiro, incluídos embaixadores e generais, o presidente Vladimir Putin tem claros objetivos externos e internos para esticar a corda, mas não chegará ao ponto de invadir a Ucrânia. Ele ganha com a pressão, mas perderia muito com a guerra.

Caem chuvas e trovoadas, aumenta o risco de a Rússia invadir a Ucrânia em dias, ou horas, e EUA, Japão, Reino Unido, Holanda e Coreia do Sul pedem que seus cidadãos saiam imediatamente de território ucraniano. Mas a viagem do presidente Jair Bolsonaro está firme e forte amanhã, e não há nenhum pedido para que brasileiros saiam do alvo.

Planalto e Itamaraty têm uma leitura mais branda do que fazem a mídia internacional e os demais governos dos comunicados em que Joe Biden admite que a Rússia “poderá”, não que “irá” invadir a Ucrânia. O Brasil aposta num recuo, sobretudo porque Biden e Putin continuavam conversando ontem. A ver.

Nos “papers” e reuniões de governo, Putin não é só um troglodita impulsivo. Vem da inteligência russa, é estratégico e obcecado com “Russia first” e “Russia great again” – ao estilo Trump – e tem razão em reagir à OTAN nas suas fronteiras, após os traumas históricos: invasões viking, mongol, polonesa e investidas de Napoleão e Hitler.

Gorbachev e Yeltsin deixaram o país em frangalhos e Putin, com mãos de ferro, pôs a economia nos eixos, investiu em segurança alimentar, tropas e armamento e acha que chegou a hora de recuperar o lugar entre os grandes, além de acalentar a alma imperial da sociedade russa, que vem desde sempre, passou pela União Soviética e deixou um rastro de saudosismo.

Ao ameaçar com a invasão, a Rússia recupera ares de potência política: rival à altura dos EUA, conquista apoio da China, mobiliza a Europa e atrai líderes de França e Alemanha a Moscou. Se partir para a guerra, Putin jogará todos os ganhos fora. Guerra é guerra. Nesse contexto, ele dará ouvidos aos interesses do Brasil, ou usará Bolsonaro para reforçar os Brics como contraponto aos EUA e demonstrar que seu raio de ação inclui o “quintal de Washington”?

O Brasil fez nota simpática sobre os 30 anos de relações diplomáticas com a Ucrânia, mas os vexames já começaram. Depois da mesa de quatro metros para o francês Macron, quantos metros terá a de Putin e Bolsonaro, que nem vacinado é? Ele fará os cinco testes de Covid exigidos pela Rússia? Qual a comitiva, reduzida a pedido de Moscou? Aliás, Mário Frias, que gastou R$ 80 mil com um assessor para ir aos EUA, faria um tour por Rússia, Hungria e Polônia com cinco subordinados. Para que? Tem lutadores de jiu-jítsu cultural por lá? 

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