Aposentadoria de "progressistas" sinaliza novo ciclo da Igreja Católica

O "bispo vermelho", d. PedroCasaldáliga, começou a preparar as malas. Já está pensando noque fazer a partir de fevereiro do ano que vem, quando completa75 anos, idade em que os bispos católicos são obrigados a seaposentar. Ele teme que Roma envie um conservador parasubstituí-lo à frente da Prelazia de São Félix - no nordeste deMato Grosso. Se isso ocorrer, pretende deixar a região e viajarpara longe. Talvez a África, para ajudar nas missões dosclaretianos, ordem religiosa à qual ele pertence. Mas, se oescolhido for um progressista, d. Pedro quer ficar por ali mesmo, às margens do barrento Rio Araguaia, onde se encontra desde1968.A aposentadoria de d. Pedro é emblemática. Simboliza o fim de umciclo na Igreja Católica no Brasil: o dos bispos que, tocadospelo fervor revolucionário de esquerda que perpassou a AméricaLatina nos anos 60 e 70, defendiam a via socialista. Admiradorde Che Guevara, d. Pedro queria a destruição do que denominou"o egoísmo do capital, o privilégio das minorias, a exploraçãodo homem pelo homem".Outros bispos que pensavam da mesma maneira, os chamados"melancias", verdes por fora e vermelhos por dentro, já seaposentaram. O afastamento de d. Pedro também coincide com ummomento de profunda mudança na cúpula da Igreja no Brasil. Doscinco cardeais na ativa, três já pediram renúncia por idade eaguardam seus substitutos. Entre eles, d. José Freire Falcão, odiscreto arcebispo de Brasília, que media negociações compolíticos e executivos do governo. Os outros são d. SerafimFernandes de Araújo, de Belo Horizonte, e d. Aloísio Lorscheider, de Aparecida.Também estão prestes a ser substituídos os arcebipos deoutros centro urbanos importantes: Natal, Belém, Curitiba,Campinas, João Pessoa, Maceió, Goiânia e Maringá. E há quase umadezenas de dioceses que podem ter seus titulares trocados até ofim do ano.Considerando que há pouco tempo foram feitas mudanças em SãoPaulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Florianópolis, em poucotempo a Igreja terá trocado a cúpula da maior parte de seurebanho no País. Esses novos pastores irão determinar os rumosdo catolicismo e suas relações com o poder pelo menos nestadécada.Pragmatismo - Mas qual é o perfil que emerge dessasmudanças? João Paulo II tem evitado nomear bispos com o perfilde d. Pedro Casaldáliga, cuja pregação, em plena ditadura, sob oAI-5, era temerária: em mais de uma ocasião foi cogitada a suaexpulsão do País. O papa prefere líderes de perfil políticomoderado. Um exemplo bem acabado do que ele deseja seria oarcebispo de São Paulo, cardeal Cláudio Hummes. Comparado comseu antecessor, d. Paulo Evaristo Arns, ele se envolve menos compolítica, dialoga com as diferentes correntes de pensamento nointerior da Igreja, é afinado com a Cúria Romana e mostrapragmatismo na condução dos negócios pastorais. Valoriza asgrandes concentrações religiosas, o uso de veículos decomunicação de massa e os sinais externos da presença daIgreja.Com erros e acertos, o papa procura encontrar dirigentesque se adaptem à nova realidade, bastante diferente de quando d.Pedro chegou da Espanha e tomou o partido dos posseiros emconflitos com fazendeiros em Mato Grosso. De lá para cá o Brasilurbanizou-se e tornou-se mais secular. A Igreja Católica perdeuinfluência política e religiosa, com o crescimento de outrasreligiões. Os novos bispos também encontram uma sociedade naqual a valorização do indivíduo e da sua consciência não têmprecedentes.

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