Aposentadoria ainda é principal renda do idoso

A pesquisa ?Perfil dos idosos responsáveis pelos domicílios?, divulgada hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sobre a situação dos idosos brasileiros, desvendou que a principal fonte de renda dos chefes de família da terceira idade ainda é a aposentadoria. O trabalho, no entanto, contribui como importante fonte de renda. Na população idosa masculina, 36% do total de rendimentos vêm do trabalho. Entre as idosas, esse porcentual é de apenas 10%, já que as pensões imperam como principal fonte de renda.?Os aposentados continuam no mercado de trabalho para complementar a renda. Isso pode até restringir um pouco o mercado para as pessoas mais jovens. Já as mulheres contam com o componente da pensão, pois muitas delas são viúvas?, diz a pesquisadora do IBGE Bárbara Soares, responsável pela análise dos dados de rendimento.As aposentadorias formam 54% do total de renda dos homens da terceira idade chefe de família, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). ?A universalização dos benefícios da seguridade social ocorrida na década passada foi um dos fatores primordiais para explicar a evolução positiva dos rendimentos no período. Dessa forma, uma boa parcela das famílias com idosos nessas condições passou a contar com um importante componente de sustentação de suas rendas?, diz o estudo do IBGE.A Pnad indica que 31,5% do total de idosos do País trabalham. São 4,5 milhões de pessoas, sendo que 3 milhões são também aposentados ou pensionistas. Ou seja, buscam um trabalho para melhorar a renda. No início da década, o porcentual era ainda maior, de 35,3% de idosos que trabalhavam.Os técnicos recorreram à Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), realizada em 1996, para mostrar os principais gastos dos idosos e chegaram à conclusão de que a maior parte da renda, 13,5%, vai para serviços de assistência de saúde. Na população com menos de 60 anos, esse tipo de gasto representa apenas 7% do total. Em segundo lugar, aparece os gastos com remédios e outros produtos farmacêuticos, com 9,7%, enquanto para a população que tem menos de 60 anos este item suga apenas 4,16% do orçamento.Os idosos revelaram-se também bons apostadores. Gastam em média 1,22% da renda em jogos e apostas, enquanto entre os mais jovens esse tipo de gasto não passa de 0,7%. Uma nova POF está sendo feita no País e ficará pronta em 2003.RegressoEste estudo revela ainda que são do Nordeste os cinco Estados que têm os maiores porcentuais de idosos chefes de família. Em boa parte, o fenômeno é explicado, segundo a chefe do Departamento de Indicadores Sociais, Ana Lúcia Sabóia, coordenadora da pesquisa, pelo retorno de trabalhadores que no passado mudaram-se para o Sul ou Sudeste em busca de emprego. ?Há uma migração de retorno dos mais velhos, que chegam de volta a seus Estados com algum dinheiro acumulado?, diz Ana Lúcia.A Paraíba é o Estado que tem a maior proporção de chefes de família idosos, chegando a 25,7% do total de chefes de família do Estado. Em seguida vêm Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Piauí. ?Por ter rendimento médio menor, o Nordeste tem mais famílias dependentes do idoso?, diz a coordenadora. Os técnicos alertam que, se a ampliação da aposentadoria melhorou o rendimento dos idosos, há o aspecto preocupante de que o envelhecimento da população ?provoca fortes pressões no sistema previdenciário e de assistência social.?Netos e BisnetosQuase 6 milhões de idosos brasileiros têm filhos e outros parentes sob sua responsabilidade e vivem com eles na mesma casa. A renda do chefe de família de 60 anos ou mais, no entanto, é bem menor do que a do total de chefes de família do País. Enquanto os responsáveis por domicílios de todas as idades ganham R$ 769 mensais em média, os da terceira idade recebem R$ 657. A pessoa-referência da família responde, em média, por 70% do orçamento familiar.Um dos fenômenos registrados pelo estudo é o crescimento do número de netos e bisnetos que vivem com os avós e, em geral, são sustentados por eles. Em 1991, eram 2,5 milhões de netos e bisnetos e passaram para 4,2 milhões em 2000. Do total de pessoas que vivem com o responsável no País, 8,8% são netos ou bisnetos. No início da década, eram 6,8%. A divulgação do perfil do idoso brasileiro pelo IBGE coincidiu com a comemoração, hoje, do Dia dos Avós.Aposentadoria ruralA boa notícia para os idosos é que eles tiveram o maior crescimento de renda, no universo dos chefes de família. O rendimento dos idosos que comandam famílias aumentou 63%, enquanto o de todos os responsáveis por domicílios ficou em 41,9%. Especialmente na área rural, os idosos foram os mais beneficiados. Enquanto todos os chefes da família rurais tiveram aumento da renda de 52,6%, o crescimento apenas na renda dos idosos foi de 76,8%.A universalização da aposentadoria rural, que passou a ser paga também para os trabalhadores que não contribuíram para a previdência, é a principal razão do crescimento da renda no campo. ?A aposentadoria rural é um fator fundamental para o orçamento familiar no meio rural?, explica a pesquisadora Bárbara Soares, responsável pela análise das informações de rendimentos. Embora, seguindo a tendência nacional de urbanização, tenha diminuído o número de idosos que vivem na zona rural, passando de 23,3% para 18,6%, os que continuam no campo vivem melhor do que no início da década.A renda do idoso que vive em áreas rurais, porém, ainda é muito menor que a daquele que vive nas cidades, com uma diferença de 40%. São R$ 739 mensais contra R$ 297. O desenvolvimento do cerrado do Centro-Oeste, faz os idosos chefes de família desta região terem a maior média no campo, de R$ 546 mensais. As desigualdades territoriais fazem o idoso chefe de família ter renda média mensal no Distrito Federal de R$ 1.796 e no Maranhão de apenas R$ 287.Salário mínimoEmbora tenha diminuído, ainda é muito alto o índice de idosos que recebem até um salário mínimo. São 39,8%, ou 3,5 milhões de chefes de família com 60 anos ou mais que vivem com menos de R$ 200 mensais, em valores de hoje. Em 1991, esse porcentual chegava a 45,8%. Na área rural, chega a 65% o índice de chefes de família idosos que vivem com até R$ 200 mensais. O porcentual dos que recebem mais de cinco salários mínimos (R$ 1.000) teve um aumento expressivo, de 13,9% para 20,9%. ?Este fato indica a melhoria da situação dos idosos, não obstante sua distribuição ainda ser desfavorável, extremamente concentrada nas classes de rendimentos inferiores?, diz o estudo.DependênciaSegundo o levantamento, a manutenção do ?papel de destaque no modelo de organização da família brasileira? das pessoas de 60 anos ou mais é revelada com a constatação de que os domicílios com chefes de família idosos aumentaram de 18,4% para 20%. Os dados mostram, por um lado, a crescente independência do idoso, refletida no aumento de 60,4% para 62,4% do porcentual de idosos que são referência no domicílio onde vivem, ao mesmo tempo que reduziu a proporção dos que vivem e provavelmente dependem economicamente de filhos de outros parentes, passando de 17,3% para 15,1%.Se por um lado o estudo revela a maior autonomia dos idosos, por outro, pode também indicar a maior dependência dos filhos em relação aos pais, por falta de oportunidade de obter sua própria renda. ?Provavelmente, o idoso que em outros censos era apontado apenas como um parente vivendo na família foi alçado à condição de pessoa de referência. Pelo fato de ter um rendimento significativo, cresceu a importância do idoso?, destaca Ana Lúcia.Os homens ainda são a grande maioria entre os chefes de família idosos, mas o número de mulheres responsáveis por domicílios vem crescendo. Hoje, do total de idosos responsáveis, 62,4% são homens e 37,6% são mulheres. Há dez anos, eram 68,1% para 31,9%. No modelo de família em que vive somente o casal de idosos, sem filhos e outros parentes, a grande maioria dos chefes é homem. Há apenas 2,1 % de mulheres idosas que têm responsabilidade (em geral, econômica) sobre o marido enquanto existem 25,9% dos idosos chefes de família vivem somente com a mulher, e respondem pelo sustento de ambos. Do grupo de 8,9 milhões de idosos chefes de família, 17,9% vivem sozinhos; 17% moram com o cônjuge, 54,5% vivem com os filhos e 11% moram com outros parentes ou acompanhantes.

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