Após vitória, militares caçam líder dos rebeldes até a rendição

Mesmo derrotado, Adeodato continuou espalhando terror entre seguidores para manter influência e liderança

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 de fevereiro de 2012 | 19h05

A tomada de Santa Maria era o fim da campanha militar no Contestado. O general Setembrino de Carvalho, porém, exigiu que seus oficiais mantivessem as perseguições aos líderes rebeldes que conseguiram furar o cerco do Exército e escapar pela mata. Era o caso de Adeodato. A 6 de abril de 1915, Setembrino enviou telegrama ao capitão Vieira da Rosa, determinando perseguição os rebeldes que conseguiram escapar do reduto durante os combates. "Capitão, em vista ter sido tomado o reducto Santa Maria, tendo o inimigo perdido em combate mais de seiscentos homens e sendo arrasadas cinco mil casas, muitas igrejas e ranchos, está terminada a campanha, devendo-se effectuar perseguição aos fugitivos em todas as direções. Saudações, general Setembrino."

 

Pequenos redutos de remanescentes de Santa Maria se formaram na mata após a queda da "cidade santa". Pedras Brancas e São Pedro, organizadas por Adeodato, no entanto, não passavam de aglomerações de mulheres e crianças famintas e homens feridos, com reduzida capacidade de reação. Pedras Brancas logo caiu. Os rebeldes se aglomeraram em São Pedro. Depoimentos obtidos nos anos 1940 e 1950 pelo pesquisador Maurício Vinhas de Queiroz, autor de "Messianismo e Conflito Social", revelam que Adeodato continuou praticando terror dentro do grupo de rebeldes para manter a influência e a liderança. Estava montado num cavalo xucro, acompanhado de uma dezena de rebeldes, quando foi alvejado por um grupo de vaqueanos. O cavalo morreu. Ferido, Adeodato conseguiu escapar. Ainda matou um companheiro, o velho Euzébio Ferreira e um cachorro deste. Euzébio apenas teria avaliado que os caboclos tinham perdido a guerra. Depois, Adeodato reconheceu a derrota. "A guerra está perdida. Não quero ninguém comigo", teria dito, erguendo uma espada, no alto de um barranco.

 

Quem analisa os documentos do Exército tem a impressão de que Adeodato passou a responder pelas "maldades" de todos os chefes rebeldes. Nos depoimentos de prisioneiros de Santa Maria, no dia de abril, mulheres e homens falam de um certo Joaquim. Uma prisioneira contou "que o chefe Joaquim é um homem muito mal, de quem todos têm medo". Ela poderia estar se referindo a Joaquim Leodato, codinome de Adeodato ou a outro chefe caboclo. Após o comando das virgens, o Contestado produziu dezenas de lideranças guerrilheiras, como observou Paulo Pinheiro Machado, no livro "Lideranças do Contestado".

 

Meses depois de perambular sozinho pela mata, em agosto de 1916, o último líder rebelde se entregou a um grupo de colonos. Adeodato foi levado para Canoinhas, sendo transferido para São Francisco e, finalmente, para Florianópolis. Condenado a 30 anos de prisão, pena máxima na época, Adeodato foi morto com dois tiros de revólver, em 1923, numa suposta tentativa de fuga da cadeia, pelo capitão Trugilo Melo, da Polícia Militar de Santa Catarina.

Elias de Moraes, o velho chefe do movimento, pode ter sido morto a mando do próprio irmão, Maximino de Moraes, um coronel de Curitibanos. Quando soube que o irmão tinha sido preso, Maximino teria dado ordem de fuzilamento. Não havia espaço para dois Moraes fortes na região.

 

Amuletos. O Exército faz descrições pejorativas sobre os caboclos presos em Santa Maria. Num dos relatórios, um oficial fala de uma mulher que apareceu no acampamento militar com uma máquina de costura e algumas crianças. "Ao coronel Estillac, comandante da Coluna Sul, Cima da Serra, 26 de fevereiro de 1915. Rio Caçador. Aprisionamos as seguintes mulheres que foram trazidas à minha presença e aqui estão: Maria Angelina, de 60 anos, viúva, bem arranjada em suas vestes; tipo respeitável, doente. Eulalia Maria de Jesus, sua filha de creação, bonita, jovem de 16 annos, bem conservada, e Marianna Boba, com uma filhinha de colo; 28 anos, solteira, imbecil, apatetada. Trouxeram pequena máquina de costura nas mãos."

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