Após ultimato de ministro da Defesa, uma pergunta se impõe: ‘Por que não te calas?’

Braga Netto tem entrado cada vez mais no varejo político, repetindo declarações golpistas de Bolsonaro; para ex-chanceler, comandantes militares não são supervisores da Justiça Eleitoral

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2021 | 19h30

Caro leitor,

Desde que assumiu o Ministério da Defesa, em março, o general Walter Braga Netto repete declarações polêmicas e golpistas do presidente Jair Bolsonaro, entrando em temas que não deveriam estar no rol dos assuntos de quem comanda as Forças Armadas. A atitude tem provocado contrariedade na tropa operacional, que vê com muitas reservas a crescente participação dos oficiais militares no varejo político do Palácio do Planalto.

No último dia 8, Braga Netto mais uma vez entoou um mantra de Bolsonaro, desta vez contra o voto impresso. Até então, porém, se avaliava que a escalada retórica do presidente contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF) não passava de bravata.

Ao dizer a um dirigente de partido que levasse a quem interessasse o aviso de que em 2022 não haveria eleições no País, se não fosse aprovado o voto impresso, Braga Netto deu ao recado o tom de ultimato e de ameaça de golpe num momento em que o ex-presidente Lula aparece na dianteira das pesquisas.

Com o governo prestes a sofrer uma derrota na comissão especial da Câmara que analisa o voto impresso, o recado foi levado pelo interlocutor de Braga Netto diretamente ao presidente da Casa, Arthur Lira (Progressistas-AL). No domingo, 11, Lira se reuniu com Bolsonaro, no Palácio da Alvorada. Disse que ele poderia contar com a Câmara para enfrentar problemas na economia e na política, mas não para ruptura institucional. O presidente respondeu que essa história não existia, pois respeitava a Constituição.

Lira recorreu, então, a uma analogia: afirmou que todos os sinais estavam dados, “com arco e flecha”, para não dizer outra coisa. No dia seguinte, 12, uma segunda-feira, o presidente do Supremo, Luiz Fux, chamou Bolsonaro para uma conversa. Na pauta oficial, a indicação do advogado-geral da União, André Mendonça, para uma vaga na Corte. Nos bastidores,  o aviso de que o STF não aceitaria ameaças de golpe nem ataques como os que Bolsonaro fizera ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso, chamado de “imbecil” por causa de suas articulações contra o voto impresso.

Uma reunião entre Bolsonaro, Lira, Fux e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), foi marcada para o dia 14, na tentativa de impedir que o Palácio do Planalto atravessasse o Rubicão. O encontro só não ocorreu porque Bolsonaro foi internado.

Braga Netto disse nesta quinta-feira, 22, que “não se comunica com os presidentes dos Poderes por meio de interlocutores” e Lira desconversou, sob o argumento de que “a despeito do que sai ou não na imprensa, o fato é: o brasileiro quer vacina, quer trabalho e vai julgar seus representantes em outubro do ano que em através do voto popular , secreto e soberano”. O Estadão mantém as informações publicadas.

O presidente da Câmara passou esta quinta-feira, 22, no telefone, tentando baixar a temperatura política e impedir uma nova crise. Foi mais um “dia de aperto”, como ele costuma dizer. O deputado faz de tudo para impedir que uma turbulência dessa magnitude respingue agora na entrada do Centrão no núcleo duro do governo, com a posse do senador Ciro Nogueira (Progressistas-AL) na Casa Civil.

Ao se mostrar “perplexo” com o relato dos bastidores da crise, Aloysio Nunes Ferreira, ex-ministro das Relações Exteriores, disse que os militares deveriam se ater às suas atribuições. “As Forças Armadas crescem no respeito da população na medida em que se calam sobre assuntos que não sejam do estatuto da defesa”, argumentou o ex-chanceler do governo de Michel Temer

“Comandantes militares não são supervisores da Justiça Eleitoral para falar sobre sistema de apuração de votos. Então, como diria o Rei Juan Carlos: ‘Por que não te calas?’”, ironizou Aloysio, numa referência à pergunta feita pelo rei da Espanha, em 2007, ao então presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Para o ex-ministro da Defesa Raul Jungmann, a politização das Forças Armadas vai existir enquanto não for proibida a participação de militares da ativa – o que não é o caso de Braga Netto – em funções de governo. Na sua avaliação, o apoio engajado do ministro à bandeira do voto impresso – registrado em nota, nesta quinta-feira – é “extremamente inadequado” para quem ocupa um cargo como o dele.

Jungmann foi um dos cinco ex-ministros da Defesa que, na semana passada, assinaram nota pública para endossar uma proposta de emenda à Constituição, de autoria da deputada Perpétua Almeida (PC do B-AC), que barra a participação de militares da ativa em cargos políticos.

“Não é possível que o Congresso continue catatônico, permitindo essa promiscuidade”, criticou ele ao defender a proposta, batizada de PEC Pazuello, em alusão ao ex-ministro da Saúde, hoje alvo da CPI da Covid. No diagnóstico de Jungmann, a politização das Forças Armadas está na raiz de todos os problemas que assistimos hoje. A troca de comando na Defesa e na cúpula do Exército, da Marinha e da Aeronáutica,  em março, expôs com todas as letras o tamanho dessa crise.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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