Após superar polêmica sobre aborto, Dilma amplia vantagem no 2º turno

Pesquisas mostram força do eleitorado feminino e fracasso da estratégia de Serra de apostar o Sudeste

Daniel Bramatti, de O Estado de S. Paulo

30 de outubro de 2010 | 15h22

Do início do segundo turno até as vésperas de seu final, a petista Dilma Rousseff ampliou de 6 para 14 pontos porcentuais sua vantagem em relação ao tucano José Serra, segundo a série de pesquisas Ibope/Estado/TV Globo.

 

No primeiro levantamento, publicado uma semana depois do primeiro turno, Dilma tinha 53% dos votos válidos, e Serra, 47%. O resultado mostrava que o tucano, que teve cerca de 33% dos votos válidos no primeiro turno, havia avançado mais do que a adversária, que teve quase 47% nas urnas.

 

Naquele momento, o eleitorado de Marina Silva, do PV, que chegou a quase 20% na primeira rodada da disputa eleitoral, migrava majoritariamente para Serra. Nas semanas seguintes, porém, a petista reduziu sua desvantagem entre os "marineiros" e se consolidou na liderança.

 

A pesquisa de 13 de outubro mostrou que o eleitorado feminino era o principal flanco de Dilma. Entre os homens, ela abria 12 pontos porcentuais de vantagem (52% a 40%), mas empatava com Serra entre as mulheres (46% a 46%).

 

Já na semana seguinte, porém, a candidata do PT abriu 7 pontos de folga no eleitorado feminino. Com mais sete dias de campanha, essa vantagem aumentou para 12 pontos.

 

Essa trajetória coincidiu com a movimentação de Dilma junto a líderes religiosos para afastar rumores de que, caso eleita, promoveria a legalização do aborto.

 

No primeiro turno, padres e pastores recomendaram que seus seguidores não votassem na petista por causa de declarações, dadas anos antes, em que se manifestava pela descriminalização do aborto.

 

Cerca de 80% do eleitorado é contra mudanças na atual legislação sobre o aborto. O tema ganhou destaque no início do segundo turno - enquanto a candidata do PT negava ser a favor da descriminalização, Serra a acusava de ter discurso dúbio em relação à questão.

 

No dia 6 de outubro, ao discursar sobre o assunto, o tucano chegou a cometer uma gafe: "Nunca disse que sou contra o aborto, porque sou a favor", afirmou, na tentativa de dizer o contrário.

 

No primeiro debate de TV do segundo turno, em 10 de outubro, Dilma procurou se mostrar como vítima de uma campanha de desinformação promovida pelos adversários. Chegou a citar uma declaração de Monica Serra, mulher do candidato tucano, que, numa caminhada de campanha, disse a um eleitor que a petista pretendia "matar criancinhas".

 

Pouco depois, a campanha de Serra distribuiu nota negando o teor de reportagens que atribuíam à própria Monica Serra a pratica de um aborto, nos anos 70, quando o casal estava exilado nos Estados Unidos.

 

No segundo debate, no dia 17 de outubro, nenhum dos candidatos mencionou o tema aborto. O confronto ficou centrado em temas como privatizações e o desempenho dos governos tucanos em São Paulo.

 

Com o arrefecimento da polêmica sobre temas religiosos, Dilma ganhou pontos no eleitorado contrário à legalização do aborto. No início de outubro, estava empatada tecnicamente com Serra nesse segmento (com 48% das intenções de voto contra 45%). No fim do mês, abriu 13 pontos de vantagem: 53% a 39%.

 

A pesquisa concluída no dia 26 mostrava que, considerando-se os votos válidos, Dilma tinha 57%, contra 43%, do adversário. Foi com esses índices que os dois chegaram ao derradeiro debate da campanha, na sexta-feira, marcado pela ausência de temas polêmicos.

 

A série de levantamentos realizada pelo Ibope mostra que, quanto menor a renda dos eleitores, maior é a probabilidade de voto na candidata do governo. A última pesquisa mostrava que Dilma tinha o dobro das intenções de voto do adversário no segmento com rendimentos de até 1 salário mínimo.

 

A divisão geográfica do eleitorado mostra que não deu resultado a estratégia de Serra de focar a campanha no Sudeste, onde o PSDB elegeu os governadores dos dois maiores Estados, São Paulo e Minas Gerais.

 

A mobilização dos tucanos Aécio Neves, Antonio Anastasia e Geraldo Alckmin, entre outros, não impediu que Dilma, no decorrer do segundo turno, saísse de uma situação de empate técnico para uma vantagem de 10 pontos - levando-se em conta apenas os votos válidos.

 

Na reta final da campanha, Serra liderava apenas na Região Sul, onde, em 2006, o então presidenciável Geraldo Alckmin também derrotou o petista Luiz Inácio Lula da Silva.

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