EVARISTO SA / AFP
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Bolsonaro e Moro fazem gesto de trégua no Planalto

Após desgastes causados por nomeações e ameaça de demissão de chefe da Polícia Federal, presidente se refere ao ministro da Justiça como ‘patrimônio público’

Julia Lindner, Mateus Vargas e Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 15h45
Atualizado 29 de agosto de 2019 | 20h19

BRASÍLIA – Numa espécie de ato público de desagravo após desentendimentos recentes, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Morp, participaram nesta quinta-feira, 29, lado a lado, de evento no Palácio do Planalto para lançar uma série de medidas na área de segurança. Em seu discurso, o presidente se referiu ao auxiliar – que chegou a ter o status de “superministro” – como “patrimônio nacional”.

O primeiro sinal de reaproximação ocorreu logo no começo do evento. Anunciado pelo cerimonialista, Moro atrasou sua descida pela rampa do Planalto que leva ao salão do evento para acompanhar Bolsonaro. Na rampa, os dois se abraçaram e foram aplaudidos.

Depois, sentaram um ao lado do outro. Os demais ministros desceram até o local separadamente. “Obrigado, Sérgio Moro. Vossa Senhoria abriu mão de 22 anos de magistratura não para entrar em uma aventura, mas para entrar na certeza de que todos nós juntos podemos, sim, fazer melhor pela nossa pátria”, disse Bolsonaro no discurso.

O presidente também afirmou, mais de uma vez, que os ministros têm “liberdade”. “Eles devem satisfação a vocês, povo brasileiro. Eles têm uma coisa importante: iniciativa. Têm essa liberdade de buscar soluções ao nosso Brasil.”

O ministro da Justiça também fez acenos ao presidente. Afirmou que o programa para combater a segurança lançado ontem foi desenvolvido com orientações de Bolsonaro. “É certo que não devemos ignorar esforços que governadores e prefeitos estão fazendo, mas é inegável o mérito do governo federal e do presidente Jair Bolsonaro”, disse Moro.

Troca na Polícia Federal iniciou desgaste entre Bolsonaro e Moro

O gesto público de trégua destoa do tom adotado por Bolsonaro nos últimos dias em relação a Moro. O desgaste entre os dois começou após o presidente anunciar, no dia 15, a troca do superintendente da Polícia Federal no Rio por “questão de produtividade”.

A declaração surpreendeu a cúpula da PF que, horas depois, em nota, contradisse o presidente ao afirmar que a substituição já estava planejada e não tinha “qualquer relação com desempenho”.

Nos dias seguintes, Bolsonaro subiu o tom. Declarou que “quem manda é ele” e que, se quisesse, poderia trocar o diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, nome de confiança de Moro. Internamente, as “ameaças” do presidente foram vistas como uma tentativa de interferência política no órgão responsável por investigações.

Apesar do gesto de trégua, ao menos dois interlocutores disseram ao Estado que o Bolsonaro não desistiu de mexer em cargos de comando da PF. Eles argumentam que não seria inédito, pois outros presidentes já fizeram isso.

Não esteve comigo na campanha, dissse Bolsonaro

Na semana passada, o presidente chegou a responder irritado a um comentário de internauta de que ele não poderia abandonar Moro. A mensagem dizia: “Jair Bolsonaro, cuide bem do ministro Moro. Você sabe que votamos em um governo composto por você, ele e o Paulo Guedes (ministro da Economia)”. Em resposta, escreveu: “Todo respeito a ele (Moro), mas o mesmo não esteve comigo durante a campanha, até que, como juiz, não poderia”.

Numa tentativa de contornar a situação, Bolsonaro e Moro se reuniram na terça-feira passada, fora das agendas. Conforme revelou o Estado, no encontro falou-se em uma “rede de intrigas” que teria como objetivo desgastar a relação entre os dois.

Horas depois, o ministro abriu evento da PF no qual reiterou compromisso do governo com o combate à corrupção e elogiou Valeixo, ameaçado de demissão por Bolsonaro. Mais tarde, também trocaram elogios pelas redes sociais. Moro reafirmou que Bolsonaro está comprometido com o fim da corrupção. O presidente respondeu: “Vamos, Moro!”.

TV Estadão: Bolsonaro x Moro: analista comenta cenário político

Fontes próximas ao presidente Bolsonaro disseram que, antes da reaproximação, ele havia se incomodado com a resistência do ministro a atender algumas das sugestões dele para a troca de postos-chave na PF. Os dois lados sempre negaram, contudo, que a relação estivesse próxima de uma ruptura. Bolsonaro e o ministro afirmaram ainda a pessoas próximas que a saída do titular do Ministério da Justiça seria ruim para o governo e o próprio Moro.

Programa do governo prevê atacar problema da violência urbana

O programa lançado prevê a união das forças de segurança municipal, estadual e federal para atacar o problema de violência urbana. O projeto-piloto será feito em cinco cidades, uma em cada região do País: Ananindeua (PA), Paulista (PE), Cariacica (ES), São José dos Pinhais (PR) e Goiânia (GO). A ideia, de acordo com o ogoverno, é aliar medidas de segurança pública a ações sociais e econômicas.

Moro disse que o objetivo é, além de reduzir crimes violentos, trabalhar de forma preventiva ao melhorar políticas públicas nas cidades. “Também temos de enfrentar causas da criminalidade, eventualmente relacionadas à degradação urbana e abandono”, disse.

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