Após sair, Lula mira posto no exterior

Em artigo para 'FT', presidente afirma que quer levar adiante esforços de seu governo para criar um mundo 'livre da fome e da pobreza'

Roldão Arruda/SÃO PAULO - O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2010 | 00h01

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu publicamente nesta segunda-feira, 28, pela primeira vez, seu desejo de ocupar algum cargo na área internacional após o término de seu segundo mandato, no dia 1.º de janeiro. Em artigo divulgado pelo site do jornal britânico Financial Times, o mais prestigioso do mundo na área econômica, ele disse: “Após deixar a Presidência, quero continuar contribuindo para a melhoria da qualidade da vida da população. A nível internacional pretendo concentrar minha atenção em iniciativas que beneficiem países da América Latina e do Caribe e o continente africano.”

 

No parágrafo seguinte ele deixou seu projeto ainda mais explícito: “Quero levar adiante os esforços feitos pelo meu governo no sentido de criar um mundo multilateral e multipolar, livre da fome e da pobreza. Um mundo no qual a paz não seja uma utopia distante, mas uma possibilidade concreta.”

 

O projeto de Lula já foi abordado mais de uma vez pela imprensa, com informações de que estaria pretendendo um cargo na Organização das Nações Unidades (ONU) ou no Banco Mundial. Até agora, no entanto, ele não havia falado diretamente sobre o assunto.

 

O artigo assinado pelo presidente faz parte de um caderno especial sobre o Brasil, que deve circular hoje com a edição impressa do jornal. Sob o título O Novo Brasil, o caderno destaca a estabilidade e o recente crescimento da economia brasileira, comparando o País a um adolescente que cresceu rapidamente, parece confiante e ansioso para deixar suas marcas no cenário internacional, mas ainda enfrenta problemas, como se não estivesse acostumado com a sua própria estatura.

 

Um dos principais méritos de Lula como presidente, segundo o Financial Times, foi ter mantido e aprofundado a política econômica lançada pelo seu predecessor, Fernando Henrique Cardoso – política que ele combateu quando estava na oposição. “Lula levou seu partido a adotar medidas cujos resultados são agora celebrados ao redor do mundo, com boa razão”, diz o texto de apresentação do caderno. “Cerca de 10 milhões de brasileiros, de um total de 192 milhões, passaram para o nível da classe média entre 2004 e 2008, e desde 1990 os níveis de pobreza caíram pela metade.”

 

No artigo, Lula, sem fazer referência ao antecessor, disse que tem muito orgulho das conquistas de seu governo, que retirou o País da situação de estagnação econômica em que se encontrava. A questão internacional foi enfatizada por ele em mais de um momento. Afirmou, por exemplo, que se sente particularmente satisfeito com a posição que o Brasil começou a ocupar no cenário mundial, procurando agir ao lado de outros países emergentes.

 

“Com eles nós estamos criando a base de uma nova economia internacional e geografia política”, escreveu. “Com eles temos procurado construir um mundo mais justo em termos sociais e econômicos – livre da fome e da miséria, com respeito aos direitos humanos e com capacidade para enfrentar a ameaça do aquecimento global.”

 

O Brasil tem muita experiência para dividir, segundo Lula, especialmente com os vizinhos da América Latina, cuja economia, na opinião dele, não vai tão bem quanto a brasileira. Na verdade vai muito mal, se for levado ao pé da letra o que escreveu: “Não podemos ser uma ilha de prosperidade cercada por um mar de pobreza e injustiças sociais.”

 

O projeto de se dedicar a atividades internacionais foi gestado há pouco tempo pelo presidente. Até dois anos atrás ainda falava em terminar o mandato e se recolher ao seu apartamento em São Bernardo do Campo – a cidade do ABC paulista onde construiu a carreira sindical que lhe deu projeção nacional e serviu de trampolim para a política.

 

Em 2008, em entrevista para o jornal Diário do Grande ABC, ao responder a uma pergunta sobre um terceiro mandato, Lula afirmou: “Hoje a minha cabeça funciona assim: oito anos é um bom tempo para alguém governar o Brasil e ficar quieto depois.”

 

Agora passa ao largo de qualquer proposta de ficar quieto e fora da cena – não importando quem seja o seu sucessor no Planalto. Quer manter vivo o capital político acumulado durante oito anos tanto no Brasil quanto no exterior.

 

Ainda segundo o Financial Times, se alguma pessoa personifica hoje a nova situação do Brasil, assumindo um novo papel na cena internacional, com estabilidade política e crescimento econômico, é o seu presidente. O jornal mais uma vez relembra a trajetória de Lula, de menino pobre e condenado à miséria a primeiro mandatário do País – uma história que ele mesmo não se cansa de contar e que encanta os estrangeiros, especialmente europeus. No artigo divulgado ontem, ele voltou a dizer que é o primeiro presidente brasileiro sem nenhum título universitário e, ao mesmo tempo, o que mais construiu universidades.

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