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Após recuo nos ataques ao STF e às eleições, Bolsonaro combate passaporte de vacina

As pesquisas dispararam a luz amarela no QG, não do Exército, mas do bolsonarismo e a coisa só piorou depois da ida a Nova York

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2021 | 03h00

Na “declaração à Nação”, o presidente Jair Bolsonaro recuou dos ataques ao ministro do STF Alexandre de Moraes. Em entrevista à Veja, ele recuou também dos xingamentos contra o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, do discurso golpista e das ameaças às eleições e às urnas eletrônicas. A guerra agora é outra: desmoralizar a Coronavac, massificar que as vacinas estão “em teste” e combater o “passaporte da vacinação”. 

As pesquisas dispararam a luz amarela no QG, não do Exército, mas do bolsonarismo e a coisa só piorou depois do desastre de cabo a rabo da ida de Bolsonaro e sua comitiva inflada a Nova York. Daí manter a linha dos recuos, um a um, mas dobrando a aposta nos erros na pandemia e centrando fogo no “passaporte”. 

A lista de novas contaminações no ambiente bolsonarista é caprichada, justamente quando o número de imunizados sobe, o de mortes cai e a variante Delta é uma incógnita: deputado Eduardo Bolsonaro, um diplomata da viagem a NY e três ministros, Marcelo Queiroga, da Saúde, Tereza Cristina, Agricultura, e Bruno Bianco, Advocacia Geral da União. 

Mas, sem ter como sustentar os delírios de golpe, manter suas guerras pessoais, e o que apresentar na economia e no social, só restou ao candidato Bolsonaro insistir no seu maior erro: o combate ao combate à pandemia. E ele e sua tropa pegam em armas contra o passaporte, exigido no Brasil e no mundo em eventos e estabelecimentos. Um manda, todos (eles) obedecem. 

Tossindo, Eduardo Bolsonaro disse que a vacina está em teste, o passaporte é um “absurdo” e comparou com as Testemunhas de Jeová, que ganharam na Justiça contra transfusão de sangue. Naquele caso, porém, tratava-se de um direito individual: toma transfusão quem quer, quem prefere adoecer e morrer, é problema seu. No da vacina, trata-se de um direito coletivo, todos têm de apresentar o comprovante para proteger os demais de contaminações e mortes. 

Para Mário Frias, secretário da combalida Cultura, a exigência é “abominável”, “um teatrinho autoritário sanitarista”, e ele não vai admitir a exigência de atestado em museus e teatros vinculados a ele, “ponto final”. E os clubes Naval e Militar, do Rio, entraram com liminar contra a comprovação de vacinas em suas dependências. 

O que essa gente tem contra máscaras, vacinas e atestado de imunização? Para o deputado, o secretário e os militares de pijama, a questão não é de saúde, medicina, ciência, estatística, vida e morte, é ideológica, a favor do “mito” e porque são coisas de comunista. Até os EUA adotam o passaporte, esse que é “absurdo”, “abominável”, “teatrinho autoritário”. Viraram comunistas! 

Obrigado a comer pizza na rua em Nova York, Bolsonaro abriu a Assembleia Geral da ONU como único presidente do G20 não vacinado, condenou o passaporte de vacina, o isolamento social e insistiu no “kit Covid”. “Não entendemos por que muitos países se colocaram contra o tratamento inicial”, disse, referindo-se a EUA, França, Alemanha, Inglaterra, Japão, Chile, Austrália, o mundo civilizado. Como o soldado da piada, ele se sente o único certo marchando com o pé errado. 

E por que Michele Bolsonaro se vacinou em NY, não no SUS e três a quatro meses antes? Bem... Se o general de quatro estrelas Luiz Eduardo Ramos se imunizou “escondido”, a mulher do presidente deve ter tido ainda mais motivos para adiar a vacina. 

O relatório final da CPI da Covid começou e termina com o foco no negacionismo macabro do presidente, baseado em fake news e espalhado nas redes pelo Gabinete do Ódio (GDO, nas mensagens entre eles), com financiamento até de empresários que perderam suas mães para a Covid. Inacreditável. Quantos milhares poderiam ter sido salvos sem isso? 

* COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA

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