Paulo Skromov/Arquivo Pessoal
Paulo Skromov/Arquivo Pessoal

Após Presidência, impeachment e escândalos, PT chega aos 40 anos longe das bases

Partido procura caminho para se reconectar à classe trabalhadora, depois de ter escolhido disputas eleitorais como prioridade e deixar burocratas na diretoria

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2020 | 16h01

Após ficar 13 anos na Presidência, enfrentar o escândalo do Mensalão, as acusações de corrupção da Lava Jato, o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, o PT chega aos 40 anos nesta segunda-feira, 10, afastado das bases populares que criaram o partido. 

Depois de ter escolhido como prioridade as disputas eleitorais e colocar na direção da sigla quadros vindos da burocracia partidária ou indicados por deputados, o PT ainda procura o caminho para se reconectar com a classe trabalhadora, que também não é a mesma de 40 anos atrás. O sindicalismo foi atingido pelas novas tecnologias, a chamada uberização do trabalho, e o fim da contribuição sindical obrigatória. 

O tamanho do desafio foi colocado pelo próprio ex-presidente Lula no sábado, durante a celebração dos 40 anos do partido no Rio. 

“Na minha época a Volkswagen tinha 44 mil trabalhadores. Hoje tem 8 mil que produzem o dobro de carros de antigamente. Estão transformando seres humanos em algoritmos. Este é o desafio que está colocado para nós. Como é que a gente organiza o movimento social outra vez?”, disse o ex-presidente. 

A opinião de Lula é compartilhada por boa parte da direção petista e também por ex-companheiros que ajudaram a criar o partido. Nas últimas semanas o Estado ouviu integrantes da primeira comissão nacional provisória do Movimento pró-PT, criada em 1979, gênese do que viria a ser a cúpula do partido, e integrantes da atual direção. Para eles, o principal objetivo do PT depois de ter chegado ao poder federal é retomar o vínculo com as bases populares e voltar a ser o canal de representação política dos trabalhadores.  

Paulo Skromov, 74 anos, responsável por comandar a histórica reunião de fundação do PT no Colégio Sion, em São Paulo, no dia 10 de fevereiro de 1980, lembra que o desenraizamento do partido começou ainda antes da formalização da legenda, por motivos legais. Segundo ele, o modelo inicial de organização do PT dava poder de voto para os núcleos partidários de base. Em menos de seis meses depois do lançamento do Movimento pró-PT já existiam mais de 200 deles em bairros e fábricas só na cidade de São Paulo.

“Foi aí que o Plínio de Arruda Sampaio (advogado e ex-deputado morto em 2014) disse que a lei exigia a organização por diretórios municipais em vez de núcleos. Era aquilo ou não teria o registro”, lembra Skromov. “Achamos que quando a ditadura acabasse poderíamos voltar aos núcleos mas isso nunca aconteceu”.

Para o ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra, o distanciamento entre o PT e sua base é fruto de um crescimento muito rápido e desordenado. “O PT foi entrando na institucionalidade, foi elegendo vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores sem pensar muito nas consequências daquilo”, disse o ex-ministro das cidades do governo Lula. 

Dutra também aponta o personalismo e a falta de rigor em relação à ética como desafios a serem superados pelo PT. “O partido não é uma pessoa, embora tenha o Lula que é muito importante no Brasil e no exterior. O partido tem que ser uma caixa de retumbância das questões colocadas pela sociedade”, afirmou. “E tem o cuidado com a coisa pública. Quando alguém pisa no tomate é um ato pessoal mas atinge todo o partido”, completou.

Para o cientista político Claudio Couto, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o principal desafio do PT hoje é retomar o vínculo com setores mais ao centro do estectro político. “O processo de afastamento de um partido da base quando chega ao poder é, de certa maneira, esperado. E quando volta para a oposição também é natural essa busca pela base. São quase movimentos complementares. O problema maior do PT hoje é a grande rejeição que ele criou em torno de si mesmo e o grande desafio é recuperar essa parcela mais ao centro que ele perdeu”, disse o professor.

Mudança. Em 1979, os integrantes da primeira comissão provisória do PT eram majoritariamente sindicalistas ou integrantes de movimentos sociais. Um deles, Sidney Lianza, de 69 anos, militava no Movimento pela Emancipação do Proletariado (MEP), participou da elaboração do programa de governo de Lula em 1989 e, depois. passou a se dedicar a uma bem sucedida carreira acadêmica. Agora, tem contribuído com o mandato de um vereador e ministrado cursos de formação política para jovens na periferia.

No início deste ano, o PT deu posse à sua nova comissão Executiva. Em alguns casos, deputados nomeiam prepostos para cargos chave na direção do partido. O perfil da atual direção levou petistas a questionarem o prazo de sua validade. Correntes defendem que a composição da Executiva seja revista logo depois das eleições municipais.

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