Gabriela Biló / Estadão
Gabriela Biló / Estadão

Após pedido de demissão de Ernesto, parlamentares comemoram: ‘Já vai tarde’

Pressionado, chanceler vinha sendo questionado dentro e fora do governo Bolsonaro

Cássia Miranda, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2021 | 16h55

Parlamentares, principalmente da oposição, usaram as redes sociais, nesta segunda-feira, 29, para comemorar a saída de Ernesto Araújo do Ministério das Relações Exteriores. As manifestações classificaram Araújo como o “pior ministro” a já ter ocupado o comando do Itamaraty. E dizem que ele “já vai tarde”. Pouco depois de o pedido de demissão vir à tona, a Embaixada da China no Brasil publicou uma mensagem no Twitter em que fala sobre “harmonia social” e diz que “não vamos deixar as mentiras políticas mancharem #Xinjiang”.

Como mostrou o Estadão, o chanceler se reuniu com o presidente Jair Bolsonaro nesta manhã para pedir demissão do cargo. Ernesto passou pouco mais de 800 dias à frente do Itamaraty e vinha sendo contestado dentro e fora do governo. O Planalto ainda não se manifestou oficialmente sobre a saída do auxiliar.

A pressão sobre Ernesto aumentou no último domingo, depois que o ministro acusou a senadora Kátia Abreu (Progressistas-TO) de fazer lobby de chineses durante almoço no Itamaraty. Com o gesto, ele forçou novo embate entre o governo Bolsonaro e o Congresso Nacional. Ela recebeu apoio expressivo de congressistas que já cobravam a demissão de Ernesto.

O deputado José Guimarães (PT-CE) disse, no Twitter, que Araújo deixa, além de um “legado terrível”, a imagem do Brasil “destruída no exterior”. “O pior ministro de Relações Exteriores pediu a demissão do cargo, espero que o pior presidente da nossa história também faça o mesmo. Ernesto Araújo deixa um legado terrível, imagem do Brasil destruída no exterior, portas fechadas e boicote na vacinação”, comentou.

“O ministro mais atrapalhou do que ajudou: foram decisões erradas todos os dias. Uma das piores foi brigar com o mundo, acabar com a nossa reputação e, com isso, colocar o Brasil em último na fila da vacina. Estamos de olho no próximo chanceler!”, avisou o deputado Alessandro Molon (PSB-RJ).

Apesar de Ernesto colocar o cargo à disposição, Bolsonaro ainda não escolheu o substituto. O nome mais forte no Palácio do Planalto é o do almirante Flávio Rocha, atual secretário de Comunicação Social e da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE). Uma ala do Palácio Planalto, porém, defende que o cargo seja ocupado por um nome político. Uma terceira opção é promover alguém da carreira diplomática. O nome cogitado é o do embaixador do Brasil na França, Luiz Fernando Serra. O diplomata, porém, indicou a colegas que não gostaria de deixar Paris neste momento para voltar ao País.

A deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ) destacou o desempenho ruim de Ernesto nas tratativas internacionais relacionadas com a compra de vacinas. “Esse foi mais um ministro que nada contribuiu no combate à pandemia, atrapalhando, inclusive, a aquisição de vacinas. Já vai tarde”, escreveu.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) limitou-se a comentar que Araújo “já vai tarde”. O deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) engrossou a opinião e também citou a pandemia. “O ministro Ernesto Araújo pediu demissão, vai tarde, muito tarde. O próximo passo é responder na Justiça por boicotar a vacinação ao gerar conflitos com a China, nosso principal fornecedor de insumos”, disse.

O deputado do Cidadania Alex Manente (SP) disse que a saída do ministro é uma “chance” para o Brasil. “Ernesto Araújo apostou na radicalização e no extremismo ideológico. No entanto, a política internacional se pauta pelo equilíbrio e diálogo e sua postura inviabilizou um combate à pandemia mais eficiente. A saída de Araújo é a chance de nos colocarmos no mundo novamente”, afirmou.

Na avaliação do senador Wellington Fagundes (PL-MT), Ernesto havia perdido as condições de seguir no comando do Itamaraty. “O chanceler Ernesto Araújo perdeu as condições de seguir à frente do Ministério Relações Exteriores. Enquanto lutamos por vacinas, esperamos que o governo se adeque ao momento da geopolítica mundial e o Brasil possa voltar a firmar relações segura com as nações”, escreveu.

A ex-ministra Marina Silva (Rede-AC) recomendou “cautela” nas comemorações. “A demissão de Ernesto Araújo merece ser comemorada, mas com muita cautela. Bolsonaro não é um presidente que oferece soluções ao País. Bolsonaro não será Bolsonaro sem o suporte daqueles que consideram Olavo de Carvalho seu guru”, escreveu.

A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), ex-apoiadora do governo Bolsonaro, também comemorou a saída do chanceler. Segundo ela, ele se antecipou ao pedido de impeachment que seria protocolado hoje, por senadores, no Supremo Tribunal Federal (STF). “O Brasil respira aliviado. Eduardo Bananinha é o responsável por este trágico senhor deve tentar emplacar outro nome”, afirmou.

Houve também quem saísse em defesa do chanceler. A deputada Carla Zambelli (PSL-SP) prestou solidariedade a Ernesto, disse “sentir muito” pela demissão e afirmou que “os valores estão todos invertidos”. 

Já a deputada Chris Tonietto (PSL-RJ) criticou as comemorações após o anúncio da demissão. “Só fica feliz com a saída do Ernesto Araújo quem pretende subjugar as nações debaixo de leis globais desconstrucionistas e amorfas. Eu nunca tinha visto tanto empenho de uma classe política em submeter o país aos interesses externos dessa maneira!”, tuitou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.