Após morte de 4 seguranças, MST diz temer represália

Em carta, movimento pede garantia de vida a famílias que estão acampadas em área no agreste pernambucano

Angela Lacerda, O Estadao de S.Paulo

24 de fevereiro de 2009 | 00h00

O promotor agrário estadual Édson Guerra vai convocar a Ouvidoria Agrária Nacional na busca de uma solução para a região de São Joaquim do Monte, no agreste pernambucano, palco de um conflito que resultou na morte de quatro seguranças da Fazenda Consulta, por trabalhadores sem-terra ligados ao MST, na tarde do sábado. Um trabalhador sem-terra ficou ferido. Ele é um dos acusado dos disparos e está foragido."O conflito social na área é muito grande, se arrasta há mais de quatro anos, com constantes ocupações, despejos judiciais e reocupações e não parece ter solução pacífica", afirmou Guerra. Em nota divulgada ontem à tarde, o MST pede garantia de vida ao poder público para as famílias acampadas na área e a desapropriação das fazendas Consulta - onde ocorreu o conflito - e Jabuticaba, onde os acampados estão concentrados. As duas propriedades estão em São Joaquim."As famílias acampadas estão sob ameaça de morte permanente", diz a nota. O líder do MST, Jaime Amorim, destacou a vulnerabilidade em que vivem as cerca de 80 famílias que resistem no acampamento. Ele disse, por telefone, temer a reação "por parte das famílias dos pistoleiros mortos e dos que não morreram". Amorim havia divulgado que representantes do Incra e da promotoria agrária estadual se reuniriam ontem com o movimento em Caruaru, a 135 quilômetros do Recife, onde fica a sede do MST. A superintendência do Incra disse desconhecer tal reunião e que iria a São Joaquim amanhã. Édson Guerra compartilha do temor dos trabalhadores quanto a eventuais represálias, uma vez que os sem-terra insistem em permanecer no local.PRISÕESDois deles - o líder do acampamento da fazenda Consulta, Aluciano Ferreira dos Santos, 31 anos, e Paulo Alves Cursino, de 62 - foram autuados por homicídio qualificado pelo delegado de São Joaquim, Luciano Francisco Soares. Eles negaram ter atirado e disseram que Romero Severino da Silva, que foi ferido e está foragido, teria sido o autor dos disparos. Um outro sem-terra, de identidade desconhecida e que teria participado da chacina, também escapou. O promotor agrário acredita que o confronto do sábado foi motivado por filmagens que teriam sido realizadas por uma sem-terra que registrou a ação de despejo da Consulta, há cerca de 15 dias, mostrando os seguranças armados. No seu depoimento, Aluciano disse que os seguranças procuravam o filme. Houve discussão e ele levou um soco na boca. Seus companheiros foram defendê-lo e o resultado foi a morte dos quatro seguranças - João Arnaldo da Silva, 40 anos, José Wedson da Silva, 26, Rafael Erasmo da Silva, 20, e Wagner Luis da Silva, 25. Eles foram enterrados anteontem. O MST diz, na nota, que os pistoleiros passaram a ameaçar os sem-terra, desde a última reintegração de posse nas fazendas, que no sábado foram reocupadas pelos acampados. Eles acusam um dos herdeiros da Fazenda Jabuticaba de contratar milícias de pistoleiros para ameaçar as famílias e proteger a fazenda. Informam que a tensão na área aumentou em 2007, quando em uma das reintegrações, os trabalhadores tiveram destruídas as suas lavouras por "capangas".Édson Guerra informou que o Incra já teria tentado encontrar áreas na região para desapropriar e assentar os acampados, mas se depara com dois entraves: a região é caracterizada por médias propriedades, com recursos hídricos, produtivas, sem espaço para plantio; e os proprietários não se interessam em vender suas terras, até porque o pagamento pelo Incra é feito em Títulos da Dívida Agrária (TDA), de forma parcelada, em período de dois a cinco anos, dependendo do tamanho da área. O outro problema, de acordo com Guerra, é quanto às dimensões das fazendas. O MST denuncia que houve manipulação de dados nos registros dos imóveis. Guerra prega que o Incra faça uma vistoria no local.

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