Daniel Teixeira / Estadão
Daniel Teixeira / Estadão

'Após lenha na fogueira, Lula sai fortalecido', diz diretor de Instituto

Para Celso Marcondes, depoimento e pedido de prisão do petista reunificaram ‘forças progressistas’

Entrevista com

Celso Marcondes

Ricardo Galhardo, O Estado de S. Paulo

12 de março de 2016 | 21h12

A condução coercitiva executada pela Operação Lava Jato no dia 4 e o pedido de prisão feito pelo Ministério Público de São Paulo na quinta-feira passada fortalecem a imagem e a posição política do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A avaliação é do jornalista Celso Marcondes, de 62 anos, um dos diretores do Instituto Lula. Segundo ele, a Operação Lava Jato é necessária, mas sofreu “desvirtuamentos”, e a atitude dos promotores paulistas jogou “lenha na fogueira” da radicalização política nas ruas. 

Você chegou a ir a algumas manifestações contra o PT na Avenida Paulista. Vai voltar aos protestos deste domingo?

Gosto muito de sentir o ambiente e a situação ao vivo e em cores, mas não vou, não. A situação está muito acirrada. O ódio aumentou. Acho mais prudente acatar a orientação do PT e ficar em casa para evitar qualquer tipo de confronto. 

Por que cresceu a hostilidade?

A condução coercitiva e o pedido de prisão (do ex-presidente Lula Silva) colocaram lenha na fogueira. Tem gente fazendo isso propositalmente.

Qual o impacto político disso?

O que eles (Lava Jato) fizeram na semana passada reunificou as forças progressistas. Houve um fortalecimento da posição e da imagem do Lula naquele momento. E, contraditoriamente, ao mesmo tempo que fortaleceu as forças democráticas, radicalizou o outro lado. 

Lula está preocupado?

Ele está preocupado com o País, com o papel dele neste momento. Mas é evidente que uma situação em que a mulher e os filhos são atingidos abala. Moral e fisicamente.

Lula vai aceitar um ministério?

Essa é uma questão nova para a gente. Eu participei da primeira reunião para discutir o tema ontem (quinta-feira). Foi uma reunião de sondagem. Ele perguntou para os diretores do instituto, líderes sindicais e partidários quando a discussão já estava pública. Em geral, as opiniões foram de dúvida e questionamento. Neste momento, é uma decisão de foro pessoal. Não vai ter uma decisão agora. 

Lula 2018?

Os movimentos que fazem a caça ao Lula estão mais preocupados com 2018. Eles não se satisfazem com o enfraquecimento da Dilma. 

A Operação Lava Jato faz parte desses movimentos?

A Lava Jato nasceu com uma motivação profundamente correta, que é investigar a corrupção na Petrobrás que vem de muitos anos. A investigação é perfeitamente legítima, necessária e está descobrindo coisas muito importantes. Não posso admitir partidos políticos, inclusive o PT, terem estabelecido relação de financiamento de campanha com empresas envolvidas no processo. Mas a Lava Jato tem desvirtuamentos importantes. Não posso aceitar vazamentos ou que a delação premiada, regulamentada pelo Lula, seja método de investigação usado para constranger as pessoas. Se fosse com a juventude negra da periferia isso seria resolvido com tortura. O interessante da Lava Jato é que coloca para as classes médias uma discussão que já existia na periferia há muito tempo. Outro problema é a seletividade. 

Incomoda a investigação sobre o sítio em Atibaia?

Tudo deve ser investigado. Mas tudo tem seus tempos, ritos e fóruns. O promotor Cassio Conserino (do Ministerio Público de São Paulo) definiu a propriedade do apartamento no Guarujá quando está comprovado que Lula não comprou o apartamento. 

Não é algo anormal o dono da empreiteira acompanhar a visita de um possível comprador? 

Sim. E tem que ser explicado. Mas posso ter uma interpretação totalmente possível de que no momento em que a OAS comprou os direitos da Bancoop, ela quis agradar e cortejar o Lula. Quis que o Lula fosse proprietário daquele apartamento porque ia valorizar o empreendimento. Só que o Lula não comprou. 

No caso do sítio em Atibaia, pessoas do próprio PT apontam falhas na versão da defesa de Lula. Como Jacó Bittar, ex-prefeito de Campinas, compraria um sítio para fazer uma surpresa a Lula se o a propriedade custava R$ 1,5 milhão e Fernando Bittar tinha apenas R$ 500 mil? 

Jacó é amigo do Lula há 40 anos. Eles têm uma relação de intimidade muito grande. Isso levou o Jacó a definir que iria comprar o sítio para que o Lula pudesse usufruir ao sair do governo. Era uma relação de confiança. 

A participação de empreiteiras na reforma... 

Está sob averiguação e a grande questão colocada é a seguinte: as pessoas estão sendo levadas a depor. Tem gente investigando. Não somos contra isso. Somos contra o prejulgamento. As ferramentas para investigação foram criadas por Lula. 

O que você viu quando foi às manifestações na Paulista?

Vi, de um lado, a manifestação legítima de um setor da sociedade descontente com os destinos do governo e tem esse direito de se mobilizar. Vi, por outro lado, a ação equivocada, ruim, nefasta de setores organizados, pequenos grupos de extrema-direita. É de chorar ver agrupamentos defendendo intervenção militar. 

O Instituto Lula decidiu redirecionar suas ações. Por quê?

Vamos promover mais encontros aqui no Brasil para discutir a integração latino-americana, a relação com a África e as grandes questões brasileiras. Temos que trazer inovação e novas propostas. O governo Dilma e qualquer outro governo será obrigado a responder a novos desafios. Não dá para falar só de Bolsa Família, ProUni e Fies toda a vida. Nesse sentido, vamos voltar às origens do Instituto Cidadania do tempo em que o PT era oposição. Daqui brotaram muitos projetos que viraram programas de governo. Essa decisão foi tomada em sintonia com a própria Dilma.

Essa decisão tem algo a ver com o envolvimento de empresas que financiavam parte dos projetos do instituto no exterior com a Lava Jato?

As construtoras são doadoras como são outras 20 empresas de diversos setores. As maiores empresas do Brasil têm esta política. A crise econômica e o andamento da Lava Jato estão obrigando o Brasil a remodelar suas relações. 

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