Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90

Após invasão nos EUA, Bolsonaro prevê ‘efeito Orloff’ no Brasil de 2022

Presidente diz não ter 'obsessão por mandato', mas vê conspiração em curso contra seu governo

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2021 | 14h51

Caro leitor,

A invasão ao Capitólio, símbolo da democracia americana, assombrou o mundo e provocou uma reflexão doméstica. Se um ataque dessa magnitude ocorreu nos Estados Unidos, o que pode acontecer no Brasil quando o próprio presidente Jair Bolsonaro diz que, se na eleição de 2022 não houver voto impresso, “vamos ter problema pior”?

Aliado de Donald Trump, que se despede da Casa Branca após a inacreditável tentativa de golpe no Dia de Reis, Bolsonaro não se cansa de afirmar que houve fraude na disputa vencida por Joe Biden. Cita ainda falcatruas na eleição que ele ganhou contra o PT, em 2018, porque seu triunfo teria sido ainda no primeiro turno. Embora nunca tenha apresentado provas do que diz, o presidente alimenta o discurso de ódio contra as instituições e a imprensa, chamada por ele de “canalha”.

Foi assim, mais uma vez, nesta quinta-feira, 9, em conversa com apoiadores, no Palácio da Alvorada. Ali, nos jardins da imponente construção projetada por Oscar Niemeyer, Bolsonaro disse que a causa da crise nos EUA foi a falta de confiança no voto e, de quebra, encaixou o  coronavírus na história. “Potencializaram o voto pelos Correios por causa da tal da pandemia e houve gente lá que votou três, quatro vezes. Mortos votaram. Foi uma festa lá”, afirmou.

Minutos depois, o presidente fez uma previsão digna de “efeito Orloff”, aquele da propaganda do “eu sou você amanhã”. Ao reclamar que a imprensa vive “o tempo todo batendo” nele, Bolsonaro deu a senha: “Se nós não tivermos o voto impresso em 22, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problema pior do que os Estados Unidos”.

A declaração causou reações na Praça dos Três Poderes, que no ano passado já assistiu a protestos antidemocráticos contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. O financiamento dessas manifestações – convocadas por uma rede de ódio que obteve lucro com a promoção de tais atos, como revelou o Estadão – está sendo investigado pela Corte.

Não é de hoje que Bolsonaro vê uma conspiração para arrancá-lo do Palácio do Planalto e, ao estilo Trump, tenta usar seus eleitores como escudo, incentivando a divisão no País. Nos primeiros dias deste ano-novo, porém, o brasileiro aumentou o tom do confronto. Tem apelado aos seguidores para que reforcem a defesa do governo contra os “canalhas”, sob o argumento de que, se a estratégia não vingar, o PT pode voltar, em 2022.

“O pessoal fala que ‘não sei quem’ não me deixa governar. Quisera eu que fosse só um ‘não sei quem’, unzinho só”, provocou o presidente, na terça-feira, 5. Horas antes, ele havia dito que “o Brasil está quebrado” e por isso, não consegue fazer nada.

Em nova “sessão desabafo” com apoiadores, nesta quinta, 7, Bolsonaro se queixou, mais uma vez, dos ataques sofridos. Como se conduzisse um programa de auditório ao ar livre, disse que a imprensa troca “toda semana” um ministro de sua equipe e o acusa injustamente de dar “cabeçada” e distribuir cargos para obter apoio, ainda mais agora, a menos de um mês da eleição para o comando da Câmara e do Senado, em fevereiro.

“O que alguns querem que eu faça é agilidade. Não dá para mudar um navio de curso rapidamente, para dar um cavalo de pau num transatlântico”, afirmou o chefe do Executivo,  tratado pelos discípulos como “mito”. Diante do “inventário” de problemas aberto naquele jardim, um eleitor retrucou: “Quatro anos é pouco, é muito pouco”.

Bolsonaro aproveitou a deixa para citar as eleições de 2022  e instruiu a plateia a olhar quem são os candidatos e por que só ele é bombardeado. “Não tenho obsessão por mandato, sede de poder”, disse o inquilino do Planalto. “Tudo o que me acusaram que eu seria, não fui. Da minha parte, não tem nenhum ato antidemocrático, não tem perseguição a nenhuma categoria, a negro, gay, gordo, careca, nordestino, nada, nada”. Trump dizia a mesma coisa.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.