Após dez dias fora, Renan reassume mandato no Senado

Senador já havia informado que não renovaria sua licença médica, mas era esperado no gabinete na terça-feira

Christiane Samarco, do Estadão

05 de novembro de 2007 | 18h15

Pressionado por quatro processos por quebra de decoro, o presidente licenciado do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), voltou nesta segunda-feira, 5, ao Congresso, depois de dez dias de licença médica, com a missão de tentar salvar seu mandato. Fora do Congresso há 25 dias, desde que se licenciou da presidência da Casa por um período de um mês e meio, em 11 de outubro, Renan decidiu reassumir o mandato "com discrição", para se dedicar integralmente à sua defesa no Conselho de Ética.   Veja também: Cronologia do caso  Entenda os processos contra Renan     Embora setores do governo torcessem para que ele renovasse a licença médica por mais dez dias, para evitar qualquer turbulência política durante as negociações para prorrogar a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), senadores de seu grupo concordam que ele deveria voltar o quanto antes. "Estava passando da hora de Renan entrar no comando da operação resgate de seu próprio mandato", disse um amigo do presidente licenciado. "Renan volta calçando as sandálias da humildade", completa o senador do grupo Renan.   O líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), foi o primeiro a visitá-lo no gabinete parlamentar da ala Afonso Arinus, que passou a ocupar no início do ano, quando cedeu às instalações antigas da ala Teotônio Vilela ao colega José Maranhão (PMDB-PB). "Vim dar um abraço e pedir o voto dele para a CPMF. Eu preciso de Renan no Senado", disse o líder no início da noite de ontem.   Indagado sobre o voto do presidente licenciado, Jucá contou que o próprio Renan fez questão de frisar que faz parte da base aliada. Em conversas reservadas, o presidente licenciado da Casa tem deixado clara sua preocupação em não criar qualquer dificuldade ao governo neste momento. "Não posso ser acusado de criar problemas com a CPMF. Não posso pagar este preço", argumentou a um peemedebista. A chegada de Renan ao gabinete de apoio surpreendeu até os assessores mais próximos, que o aguardavam apenas nesta terça-feira. O senador, no entanto, fez questão de reassumir o mandato parlamentar para que pudesse "tomar o pulso" do plenário e se certificar dos votos com os quais poderá contar para se livrar da cassação.   Um senador de seu grupo afirma que nem mesmo a licença médica o imobilizou. Ao contrário, Renan aproveitou os dez dias de descanso forçado para intensificar os contatos telefônicos com senadores da base aliada e da oposição. O relatório do primeiro dos três processos que tramitam contra ele no Conselho de Ética só será apresentado na próxima semana. O relator Jefferson Peres (PDT-AM), que investiga a denúncia de que Renan teria usado "laranjas" na compra de um jornal e de uma emissora de rádio em Alagoas, prometeu concluir seu trabalho no dia 14.   A primeira providência de Renan, na chegada ao gabinete, foi comunicar seu retorno ao presidente interino, Tião Viana (PT-AC), ao presidente nacional do PMDB, deputado Michel Temer (SP), e ao líder Jucá. A quem o questionou sobre seu retorno ontem, Renan explicou apenas que havia concluído os últimos exames médicos na quinta-feira. Contou que fez uma prova de esforço e saiu-se muito bem, e que fez até exame de vista. Como os médicos não fizeram nenhuma restrição a que voltasse ao trabalho, não havia porque renovar a licença.   Ameaça do PMDB Trocados pelo PSDB, senadores peemedebistas estão se recompondo com Renan e usando-o como arma para cacifar a bancada, segundo reportagem do Estado deste domingo. O resultado dessa operação é que o governo administra a ameaça peemedebista de devolver a Renan a cadeira de presidente entregue ao PT de Tião Viana (AC) ou deflagrar a sucessão do Senado, tumultuando a votação da CPMF."O PMDB se sente desprestigiado, neste momento em que o governo negocia a CPMF com o PSDB e dá a impressão de que vai esquecer o Parlamento depois da votação", diz Viana. "O sentimento do partido é de que fomos abandonados pelo Palácio", relata o senador Gilvam Borges (PMDB-AP), convencido de que as queixas veladas podem fazer "desandar" o processo político se não houver "atenção especial" ao partido.A conseqüência imediata desse quadro é que a crise Renan, da qual todos queriam se livrar 22 dias atrás, converteu-se em uma espécie de trunfo do PMDB, tanto para conter setores do PT que sonham em assumir o comando do Congresso, como para reagir ao que os peemedebistas chamam de "desprezo" do governo pela sigla na negociação da CPMF. Esse sentimento serve, na prática, para rearticular a salvação de Renan no plenário do Senado e mantê-lo à frente do Congresso.

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