Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Após derrota na Câmara, Planalto abre negociações para cargos de 2º escalão

Um dia depois do revés político sofrido com a eleição de Eduardo Cunha, Dilma Rousseff inicia um processo de distensão com sua base aliada; a presidente telefonou para o peemedebista e tenta agora evitar uma pauta parlamentar contrária ao governo

Vera Rosa, João Domingos e Daniel Carvalho, O Estado de S. Paulo

03 Fevereiro 2015 | 05h00


Brasília -  Vinte e quatro horas depois da significativa derrota política do governo na Câmara, a presidente Dilma Rousseff iniciou nesta segunda-feira, 2, o processo de distensão com sua base aliada no Congresso e prometeu abrir negociações para os cargos de segundo escalão. A ordem no Palácio do Planalto é amenizar o fracasso, recompor o relacionamento com os aliados, mudar os líderes do governo e do PT na Câmara e impedir a “caça às bruxas” dos traidores. 

Dilma fez um gesto na direção do diálogo ao telefonar para o novo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Na ligação, ela cumprimentou o antigo inimigo pela vitória, assim como fez com Renan Calheiros (PMDB-AL), reconduzido à presidência do Senado. 

Cunha derrotou o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) no primeiro turno da eleição para o comando da Câmara, no domingo, expondo a fragilidade da articulação política do governo. As trapalhadas foram tantas que o PT ficou sem cadeiras na Mesa Diretora e sem as principais comissões da Casa, como Constituição e Justiça e Finanças e Controle. 

A presidente se reuniu ontem e no domingo com ministros da coordenação do governo. O diagnóstico feito de forma reservada na cúpula do PT é que a disputa escancarou um “desastre” na articulação do governo. Mesmo assim, apesar da pressão da corrente Construindo um Novo Brasil (mais informações no texto ao lado), majoritária no partido, Dilma não substituirá o ministro das Relações Institucionais, Pepe Vargas. “Quando tem um jogo de futebol, tem carrinho, tem puxão da camiseta, às vezes até uma canelada. Termina o jogo, os amigos sentam e tomam uma cervejinha”, disse Vargas. 

“Agora precisamos pensar nos desafios de construir uma agenda e começar a votar. Temos o ajuste fiscal, necessário para a estabilidade econômica”, afirmou o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, que esteve ontem na Câmara para a abertura dos trabalhos legislativos. 

Critérios. Mercadante e Cunha cochicharam diversas vezes, enquanto o primeiro secretário da Mesa Diretora, Beto Mansur (PRB-SP), lia a mensagem enviada por Dilma ao Congresso. “O segundo escalão começa a ser montado agora em fevereiro, sob a condução da presidente”, avisou o titular da Casa Civil ao final da sessão. “Nós já recebemos as solicitações dos partidos e não houve nenhum compromisso, até este momento, para respeitar as eleições no Congresso. Agora começam as negociações para definir o segundo escalão e combinar o critério técnico da competência com o critério político do apoio parlamentar no Congresso.” 

Na lista dos cargos que faltam ser preenchidos estão diretorias da Eletrobrás, Sudene, Banco do Nordeste, Companhia Hidroelétrica do São Francisco, Furnas, Banco da Amazônia, Departamento Nacional de Obras contra as Secas e Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba. 

O governo quer negociar para evitar uma “pauta-bomba” de votação, com projetos contrários a seus interesses, como o Orçamento impositivo. Ontem, o vice-presidente Michel Temer chamou Cunha para um almoço, no Palácio do Jaburu. 

O ex-presidente da Câmara Henrique Eduardo Alves (PMDB), aliado de Cunha, pode ser nomeado para o Ministério do Turismo se não estiver na lista que o procurador-geral da República,Rodrigo Janot, deve enviar ainda este mês ao Supremo Tribunal Federal com os políticos suspeitos de envolvimento no esquema de corrupção na Petrobrás. O temor do Planalto, agora, é que Cunha não segure eventuais pedidos de impeachment de Dilma, e fique ao lado do PSDB, que trabalha para instaurar quatro CPIs. 

O presidente da Câmara garantiu a Temer que não fará oposição ao governo. “Ele sabe que há uma missão institucional”, disse o vice-presidente. O peemedebista, porém, deixou uma dúvida no ar ao dizer que seguirá a pauta que os líderes aprovarem. “Seja ela agradável ou não ao Planalto.” 

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