Após depoimento, Mattoso pede demissão

A Caixa Econômica Federal (CEF) divulgou nota em que informa que o presidente da instituição, Jorge Mattoso, colocou seu cargo à disposição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na nota, Mattoso diz que não foi o responsável pelo vazamento das informações e pela quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Santos Costa. "Não fui o responsável pelo vazamento da informação e estou convicto de que nenhum empregado da Caixa deu causa à divulgação indevida."No seu depoimento, que durou cerca de duas horas, na tarde desta segunda-feira, Mattoso citou nominalmente duas vezes o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, como sendo a pessoa a quem ele entregou pessoalmente o extrato da conta de poupança do caseiro na Caixa.Ele foi indiciado em dois artigos do Código Penal e pode pegar até seis anos de reclusão pelo crime. Em depoimento que durou duas horas, Mattoso assumiu a responsabilidade pelo ato e disse que entregou os extratos do caseiro dentro de um envelope, em mãos, a Palocci. O ex-ministro também passa a ser alvo de investigação e deverá ser convocado para depor na segunda etapa do inquérito. A PF vai agora concluir as perícias e fazer o cruzamento de dados e depoimentos para levantar toda a cadeia de comando envolvida no crime. Caso haja mais de três envolvidos, eles serão indiciados também por formação de quadrilha, risco que correm tanto Mattoso como Palocci e os demais dirigentes, quase todos petistas, envolvidos no episódio.Os outrosEntre os demais passíveis de indiciamento até agora mapeados por terem participação central no caso, está o consultor da Presidência da Caixa Ricardo Schumann, amigo de Mattoso. Foi ele que recebeu a ordem de Mattoso para levantar os dados do caseiro e transmitiu a ordem aos subordinados da sua confiança.Correm o mesmo risco a superintendente nacional de Gestão de Pessoas da Caixa, Sueli da Silva Mascarenhas, intermediária da ordem e o gerente de conta Jeter Ribeiro de Souza, que confirmou ter feito o acesso da conta e a impressão dos extratos do caseiro. A entrega dos dados ao ministro, conforme Mattoso relatou à polícia, foi feita na noite do último dia 16 de março, dois dias depois da entrevista, publicada no Estado, em que Francenildo revelou que Palocci era freqüentador regular da mansão do Lago Sul em que lobistas de Ribeirão Preto promoviam negócios ilícitos e festas com garotas de programa.O presidente da Caixa relatou que ao longo do dia 16 foi advertido por técnicos da área financeira da Instituição. "Eles me alertaram da atipicidade das movimentações bancárias do caseiro", disse Mattoso à polícia, relatando que comunicou o fato a Palocci e determinou a Schumann que obtivesse cópias dos extratos, entregues na noite do mesmo dia ao ministro.No dia seguinte, 17 de março, ele disse ter notificado os dados da movimentação do caseiro ao Banco Central e ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para aprofundamento da investigação do caseiro, que passou a ser tratado como suspeito de lavagem de dinheiro pelos órgãos de fiscalização do estado, subordinados a Palocci.Mattoso ponderou que agiu de boa fé e alegou que, por lei, a Caixa, como qualquer banco, tem o dever de avisar ao BC e ao Coaf sobre "movimentações atípicas". As explicações, porém, não convenceram à polícia, que identificou indícios de violação ilegal de sigilo e também de associação criminosa de vários membros da Caixa e do Ministério da Fazenda para cometimento de ilícito.DeverO presidente da Caixa foi indiciado com base no Artigo 10 da Lei Complementar 105, que trata do sigilo de operações financeiras e no Artigo 325 do Estatuto do Servidor Público, que trata do sigilo funcional. Esse dispositivo pune com pena de seis meses a dois anos o servidor que "revelar fato sigiloso de que tenha ciência em razão do cargo".A PF concluiu que outro investigado, o gerente Paulo César Biasi, é inocente e por enquanto está livre de indiciamento. Ele é um dos dois que operavam a máquina onde foi violado o sigilo do caseiro. O outro, Jeter já foi interrogado e a PF analisa se agiu apenas cumprindo ordem sem conhecimento da finalidade criminosa.Nesses dez dias desde que foi aberto o inquérito, a PF teve a colaboração decisiva do gerente de Segurança de Informação da Caixa, Delfino Natal de Souza e do presidente da Comissão de Sindicância aberta pela própria instituição, Marco César Cazali.

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