Marcelo Camargo/Agência Brasil
Marcelo Camargo/Agência Brasil

Após críticas, Ernesto Araújo volta a identificar nazismo como movimento de esquerda

Ministro das Relações Exteriores compartilhou opinião em blog pessoal, duas semanas depois de ter feito essa mesma associação em entrevista a um canal do Youtube

André Ítalo Rocha e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2019 | 15h26

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, voltou neste sábado, 30, a identificar o nazismo como um movimento de esquerda, em artigo publicado em seu blog pessoal, duas semanas depois de ter feito essa mesma associação em entrevista ao canal do YouTube Brasil Paralelo. O artigo foi publicado após especialistas reagirem com críticas a esse trecho da entrevista.

"Eu opinei que o nazismo é de esquerda, e imediatamente a esquerda (junto com o mainstream por ela dominado sem o saber) chegou correndo com seus extintores de incêndio, ou melhor, seus extintores de verdade, tentando apagar essa ideia", afirma o ministro, no início do seu artigo, compartilhado por ele em sua conta no Twitter.

No texto, Araújo defende em seguida que é fácil notar que "o nazismo tinha traços fundamentais que recomendam classificá-lo na esquerda do espectro político."

"O nazismo era anti-capitalista (sic), anti-religioso (sic), coletivista, contrário à liberdade individual, promovia a censura e o controle do pensamento pela propaganda e lavagem cerebral, era contrário às estruturas tradicionais da sociedade. Tudo isso o caracteriza como um movimento de esquerda", argumenta. "Portanto, o nazismo era anti-liberal (sic) e anti-conservador (sic). A esquerda também é anti-liberal (sic) e anti-conservadora (sic)", diz.

"Já a direita foi em alguns casos anti-liberal (sic) (durante o Século XIX na Europa, por exemplo), em outros casos anti-conservadora (sic) (ou pelo menos não-conservadora, indiferente aos valores conservadores, como no caso do neoliberalismo recente), mas nunca foi anti-liberal (sic) e anti-conservadora (sic) ao mesmo tempo. Em tal sentido, o nazismo se sente muito mais confortável no campo da esquerda do que no da direita", compara.

Na entrevista ao canal Brasil Paralelo, ele afirmou que nazismo e fascismo são resultados de "fenômenos de esquerda". “Eles, de certa forma, sequestraram esse sentimento (do nacionalismo). É muito a tendência da esquerda: pega uma coisa boa, sequestra, perverte e transforma em coisa ruim. Isso tem a ver com o que eu digo que fascismo e nazismo são fenômenos de esquerda. É a mesma lógica”, diz.

A declaração do chanceler ao canal repercutiu negativamente na principal emissora de TV pública da Alemanha, a Deustche Welle. Em texto publicado na quinta-feira, na versão do seu site em português, a emissora afirma que as falas de Araújo vão contra o consenso acadêmico sobre o tema e ressalta que essa discussão é inexistente entre historiadores sérios do país. “Há décadas não restam mais dúvidas, nos âmbitos acadêmico, social e político, sobre a natureza de extrema direita do nazismo”, diz a reportagem.

Para o jornalista do Estado e historiador Marcos Guterman, o nazismo não pode ser qualificado como de esquerda em nenhuma circunstância. Em geral, quem usa esse discurso se vale do nome da legenda nazista: Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Há grupos na internet que costumam reproduzir essa ideia. “Mas é outro contexto. Não tem nada a ver com o socialismo marxista. Tem a ver com o sentido da totalidade da sociedade alemã”, afirmou ele.

Para Guterman, se trataria de uma argumentação insustentável cujo único objetivo seria o de mobilizar a militância. “Ele está respondendo a um pensamento do eleitor.” Em entrevista à Deustche Welle no ano passado, o embaixador da Alemanha no Brasil, Georg Witschel, chegou a afirmar que essa discussão “não tinha base honesta”.

O professor alemão Oliver Stuenkel, da área de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), diz que a afirmação faria parte do “submundo das conspirações”. Para Stuenkel, a argumentação de Araújo traz constrangimento, mas há o entendimento de que ela não representa a totalidade do governo.

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