Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Após crítica de Bolsonaro à imprensa, apoiadores hostilizam jornalistas no Alvorada

Xingamentos contra profissionais pela claque bolsonarista já se tornaram rotina

Marlla Sabino, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2020 | 15h43
Atualizado 25 de maio de 2020 | 21h39

BRASÍLIA – Profissionais de imprensa foram mais uma vez alvo de insultos e xingamentos por parte de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro em frente ao Alvorada. As hostilidades contra profissionais da imprensa pela claque bolsonarista se tornaram rotina na entrada da residência oficial, mas nesta segunda-feira, 25, foram mais contundentes, principalmente pela presença de um número maior de apoiadores. O grupo mais exaltado, porém, não passava de 15 pessoas. 

As agressões verbais ocorreram logo após o presidente criticar jornalistas. “O dia que vocês tiverem compromisso com a verdade eu falo com vocês”, disse, indicando que não daria entrevista. “Mídia lixo”, “comunistas”, “safados” foram alguns dos insultos ditos logo após Bolsonaro deixar o local.

Após o incidente, Folha de S.Paulo e o Grupo Globo anunciaram que vão suspender a cobertura jornalística na porta do Palácio do Alvorada, local onde Bolsonaro costuma parar para cumprimentar apoiadores e dar entrevistas. Ambos alegam falta de segurança para trabalho dos profissionais.

Diariamente, grupos de apoiadores aguardam para falar com o presidente pela manhã, quando Bolsonaro deixa a residência oficial, e no fim da tarde, quando ele retorna. Nesta segunda-feira, o movimento foi maior, já que muitos viajaram a Brasília para participar de ato pró-governo realizado no domingo, 24, na Esplanada dos Ministérios. Por causa da lotação, alguns apoiadores ficaram em uma área do lado oposto, em frente ao espelho d’água do Palácio.

Ao descer do carro nesta manhã, o presidente retirou a máscara para falar com os apoiadores que estavam próximo ao espelho d’água. Ao se dirigir para cumprimentar as pessoas que o esperavam, do outro lado, colocou o equipamento de segurança – que é obrigatório no Distrito Federal. O presidente falou com apoiadores por cerca de quinze minutos.

TV ESTADÃO: Apoiadores de Bolsonaro hostilizam jornalistas 

A segurança no Palácio da Alvorada é responsabilidade do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), mas nesta manhã os seguranças levaram alguns minutos para retirarem o grupo do local. Com o aumento das agressões verbais, duas grades foram instaladas na tentativa separar jornalistas e apoiadores. O reforço, no entanto, foi retirado e apenas uma grande e uma fita de contenção são usadas para segurança. Procurado nesta segunda-feira, o GSI não se manifestou.

Além de xingamentos, apoiadores já chegaram a revirar o lixo em frente à sala em que ficam jornalistas na tentativa de expor repórteres, cinegrafistas e fotógrafos. A equipe de segurança abordou os homens e pediram para que apagassem o vídeo. As imagens, no entanto, foram compartilhadas nas redes sociais.

Mais tarde, ainda nesta segunda-feira, jornalistas voltaram a ser hostilizados por apoiadores do presidente em frente ao Ministério da Defesa, na Esplanada dos Ministérios. Bolsonaro participou de almoço com o chefe da pasta, Fernando Azevedo e Silva, e com os comandantes das Forças Armadas. A Polícia Militar do Distrito Federal precisou intervir para afastar o grupo.

Bolsonaro já incentivou apoiadores a intimidar os profissionais de imprensa no local em outras ocasiões. Em março, jornalistas que fazem a cobertura diária no Alvorada se retiraram de entrevista concedida pelo presidente após ele mandar repórteres ficarem quietos e estimular apoiadores a hostilizar os profissionais que estavam no local.

“É ele que vai falar, não é vocês não”, disse, mandando os repórteres ficarem quietos. Em outra ocasião, Bolsonaro mandou jornalistas calarem a boca ao ser questionado sobre interferência política na Polícia Federal. O presidente também já chamou jornalistas de “idiotas” pelas redes sociais ao afirmar que era falsa a informação de que faria um churrasco, anunciado por ele mesmo.

Os registros de agressões físicas de apoiadores também aumentaram. No início de maio, profissionais do Estadão foram agredidos com chutes, murros e empurrões por apoiadores de Bolsonaro durante manifestação pró-governo na Esplanada dos Ministérios. Em outro ato, uma apoiadora bateu com o mastro de uma bandeira do Brasil na cabeça de uma jornalista da Band News.

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