Daniel Teixeira|Estadão
Daniel Teixeira|Estadão

Após confrontos durante caravana no Sul, Lula diz que petistas vão 'retribuir'

'Não nos provoquem porque se derem um tapa na nossa cara a gente não vai apernas virar para o lado', afirmou o ex-presidente ao passar por Florianópolis

Ricardo Galhardo - enviado especial a Florianópolis, O Estado de S. Paulo

24 Março 2018 | 17h37

Florianópolis - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi obrigado a desviar o itinerário da caravana pela região Sul por causa de protestos de opositores e falta de garantias de segurança. Neste sábado, em Florianópolis, ele disse que os petistas devem retribuir caso sejam agredidos pelos adversários.

"Tem gente se organizando como paramilitar. Tem gente se preparando até para invadir o comício do outro. Quero dizer para essa gente que nós somos da paz. É só olhar para a cara de vocês. Somos gente de paz. Mas não nos provoquem porque se derem um tapa na nossa cara a gente não vai apernas virar para o lado, a gente vai retribuir até eles aprenderem a viver democraticamente", disse Lula, no início da tarde, diante de milhares de apoiadores que encheram a Praça XV de Novembro, no centro da capital catarinense.

Algumas dezenas de metros adiante um grupo menor protestava contra a presença do ex-presidente na cidade. Entre eles havia desde militantes de grupos moderados como o Vem Pra Rua até apoiadores do deputado e presidenciável Jair Bolsonaro (PSL-RJ), mais exaltados. 

Os grupos foram separados por dois cordões da Polícia Militar e, apesar das hostilidades e provocações, não foram registradas agressões. 

As manifestações contra Lula em Florianópolis foram tranquilas se comparadas com as confusões ocorridas durantre a passagem do ex-presidente pelo Rio Grande do Sul.

Impedido de entrar em Passo Fundo (RS), na sexta-feira, 23, devido a um bloqueio feito por ruralistas, Lula e sua comitiva tiveram que ir para Chapecó (SC), onde uma parte embarcou em vôo fretado para Porto Alegre (RS). O ex-presidente e alguns auxiliares mais próximos pernoitaram em um hotel próximo ao aeroporto e seguiram também de avião para Florianópolis.

A mudança de planos fez com que a agenda do ex-presidente atrasasse mais de duas horas. Da capital catarinense Lula seguiu para Chapecó (SC) novamente em vôo fretado. A ideia inicial era que Lula fizesse apenas a etapa entre Passo Fundo e Porto Alegre de avião e o restante da caravana de ônibus. 

Segundo o ex-ministro Miguel Rossetto, um dos motivos para o desvio foi a falta de garantias de segurança. “A Secretaria de Segurança Pública e o comando da Brigada Militar disseram que não poderiam garantir a segurança até o aeroporto de Passo Fundo”, disse Rossetto, que é pré-candidato do PT ao governo do Rio Grande do Sul. 

A secretaria afirmou ter garantido a segurança da caravana mesmo não sendo sua atribuição já que na comitiva havia dois ex-presidentes –Dilma Rousseff acompanhou parte do périplo. Disse ainda que a Brigada Militar "em momento algum, tentou reprimir qualquer tipo de manifestação" e que "a contenção ao incidente em Passo Fundo só seria possível com uma ação repressiva muito forte, o que não seria e não foi feito pela Brigada Militar - talvez fosse este o desejo do PT".

'Vou voltar'. Em Florianópolis, Lula disse que ainda pretende visitar Passo Fundo. “Eu vou voltar”, afirmou.

Na praça, o petista recebeu o título de cidadão catarinense. A outorga foi aprovada em agosto de 2008 por unanimidade da Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Agora, depois das condenações em primeira e segunda instância por lavagem de dinheiro e corrupção passiva, deputados de oposição ameaçam cassar a homenagem.

Lula quase chorou ao reiterar sua inocência e questionar as condenações pela Justiça. “A única frase que eu podia dizer é que não respeito aquela decisão porque senão eu não conseguiria olhar na cara da minha bisneta”, disse Lula, com a voz embargada.

A segurança de Lula foi reforçada por homens contratados e voluntários que cercaram o palanque do ex-presidente. Um deles era Alex Moraes, que trabalhou toda a madrugada anterior em um posto de gasolina. “Cumpri pena por tráfico até três anos atrás e saí graças a um indulto natalino do Lula”, disse Moraes, que vive no Morro do 25, em Florianópolis.

Os dois homens que fazem a segurança de Lula desde que ele deixou a Presidência estavam em cima do palco, atentos à movimentação de pessoas. Apesar disso, depois do ato no centro da cidade, o petista desceu do palanque para abraçar e tirar selfies com seus apiadores. 

Antes, Lula participou de um encontro com reitores das universidades públicas de Santa Catrarina ao lado do ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro da Educação Fernando Haddad, coordenador do programa de governo e um dos nomes cotados para substituir Lula na campanha presidencial caso o petista seja barrado pela Justiça. 

Centenas de manifestantes contrários ao petista foram até o local. Um deles arrancou uma bandeira do PT das mãos de um professor. A peça foi rasgada e queimada aos gritos de “queimem o PT”.

Do lado de dentro da Assembleia Legislatica de Santa Catarina (Alesc), bem humorado, o ex-presidente arrancou gargalhadas dos reitores ao lembrar das ações em seu governo que “beneficiaram” os cachorros. “Eles são mais inteligentes e têm mais capacidade de demonstrar carinho do que muito ser humano. Bem tratados são incapazes de um gesto de ódio”, disse Lula. 

O ex-presidente falava de duas leis, ambas aprovadas em seu governo. Uma delas permite que deficientes visuais entrem com cães-guia nos ônibus e metrô, a outra inclui os cachorros formalmente na categoria de animais domésticos. “Na próxima vez vai ser para eles poderem tirar título de eleitor”, brincou Lula. 

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