Após caso Battisti, Berlusconi cancela visita ao Brasil

Decisão do ministro Tarso Genro de conceder refúgio ao ex-militante italiano abriu crise entre países

Denise Chrispim Marin, de O Estado de S.Paulo,

29 de janeiro de 2009 | 23h00

O primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, cancelou sua visita ao Brasil, prevista para o final de fevereiro, diante do desgaste das relações bilaterais provocado pelo caso Cesare Battisti, conforme informou ao Estado uma fonte da diplomacia italiana. O gabinete de Berlusconi considerou impossível, neste momento, responder tão prontamente à visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Roma, em novembro passado, e dar um passo em favor do aprofundamento da parceria estratégica entre os dois países, como estava programado. Veja também:STF dá cinco dias para Itália se manifestar sobre o caso BattistiBattisti diz que é inocente e denuncia 'democracia mafiosa' na Itália TV Estadão: Ideologia não influenciou concessão de refúgio, diz Tarso   Documento: Processo do Ministério Público que defere extradição de Battisti    Abaixo-assinado a favor do refúgio a Battisti  Leia tudo o que já foi publicado sobre o caso e entenda o processo Entenda a polêmica do caso Battisti   Uma possível decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em favor da extradição de Battisti não seria suficiente para o governo Berlusconi reconsiderar sua visita ao País. O STF deverá julgar o pedido italiano no início de fevereiro. Ontem, definiu um prazo de cinco dias para que o governo italiano apresente sua argumentação em favor da extradição. Mas não há indicação de que o Supremo venha a dar ganho de causa à Itália. A assessoria de imprensa do Itamaraty limitou-se ontem a informar que não recebeu nenhuma comunicação oficial de Roma sobre a visita de Berlusconi ao Brasil. Ou seja, como a visita não estava marcada não poderia ser desmarcada. Fontes da diplomacia, entretanto, informaram que estava em curso negociações entre ambas as chancelarias para a definição precisa da data da visita do primeiro-ministro a São Paulo e a Brasília, depois do Carnaval. Com o espaço de apenas três meses entre a visita de Lula à Itália e de Berlusconi ao Brasil, o governo italiano pretendia dar um sinal político em favor da intensificação da cooperação e dos negócios entre os dois países. Essa tinha sido, justamente, a posição defendida por Lula durante sua visita de cinco dias a Roma. Escudado no salto de US$ 4 bilhões para US$ 8 bilhões no intercâmbio Brasil-Itália entre 2003 e 2008, Lula defendera o aquecimento do comércio bilateral. Referindo-se à crise econômica global, o presidente afinara o seu discurso ao de Berlusconi e defendera uma maior coordenação entre os países e que não entrassem em "pânico". Ao lado de Berlusconi, Lula assistiu a assinatura de acordos de cooperação nas áreas de defesa, infraestrutura, tecnologia espacial e saúde. O clima entre os dois países, entretanto, deteriorou-se gradualmente desde 13 de janeiro passado, quando o ministro da Justiça, Tarso Genro, concedeu refúgio político a Battisti - um militante do grupo Proletários Armados para o Comunismo (PAC) condenado pela Justiça italiana à prisão perpétua por atos terroristas que causaram a morte de quatro pessoas, nos anos 70. Apesar da insistência do Ministério de Assuntos Exteriores (conhecido pelo nome de Farnesina) e das pressões da opinião pública italiana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva respaldou a decisão de Genro - que havia contrariado o Comitê Nacional para Refugiados (Conare) e o parecer da Procuradoria-geral da República - e pôs uma pedra sobre o caso. No último dia 27, a chancelaria italiana chamou de volta o seu embaixador em Brasília, Michele Valensise, para consultas. Trata-se de um gesto diplomático que indica o agravamento do conflito bilateral e que prenuncia uma decisão mais séria - como o rompimento das relações. O governo italiano deu sinais de que também pode gerar dificuldades para a participação do Brasil na reunião de Cúpula do G8 (as sete maiores economias e a Rússia), programada para junho, na Sardenha. A Itália está na presidência temporária desse grupo. Nos últimos anos, Lula tem sido convidado a participar do diálogo entre o G5 - os emergentes África do Sul, Brasil, China, Índia e México - e o G8.

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