Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Após Bolsonaro falar em pólvora, ministro da Defesa diz que Brasil é pacífico

Exército, Marinha e Aeronáutica estão inseridos na 'democracia plena', afirma Azevedo

Felipe Frazão, O Estado de S. Paulo

13 de novembro de 2020 | 11h19

BRASÍLIA — Após o presidente Jair Bolsonaro falar em “usar a pólvora” se a diplomacia fracassar, o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, disse nesta sexta-feira, 13, que o Brasil é um País pacífico. “Nós somos um País pacífico, em busca da paz sempre, mas não existe país pacífico sem ser forte, é uma condição que a história ensinou”, afirmou o ministro, destacando a estratégia de dissuasão. Azevedo também disse que o Brasil tem como princípio a "não intervenção".

 

Conselheiro de Bolsonaro, o ministro afirmou que a declaração do presidente foi “força de expressão” e vetou que comandantes das Forças Armadas comentassem o episódio.  “Estamos levando nossa vida normal. Em nada afetou”, disse o general de Exército da reserva. O ministro lembrou ainda que os militares estão por obrigação legal diretamente envolvidos nas relações internacionais, "o que pouca gente lembra". Ele falou durante a abertura do Seminário de Defesa Nacional, ao lado dos comandos das Forças Armadas.

 Segundo Azevedo, o Exército, a Marinha e a Aeronáutica estão inseridos na "democracia plena". Na mesma linha, o comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, preocupado com a politização nos quartéis, tentou rechaçar qualquer suspeita de partidarismo na tropa. A identificação dos militares com o atual governo aumentou porque o oficialato da ativa participa do alto escalão ministerial de Bolsonaro, ele próprio capitão reformado. O caso mais notável é o ministro interino da Saúde, general de Divisão Eduardo Pazuello. Mas até meses atrás havia dois outros casos: o almirante-de-esquadra Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia, e o general de Exército Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo. Ambos passaram para a reserva.

O comandante disse que o Exército “não tem partido”.  Usou, porém, uma frase que virou chavão nacionalista com Bolsonaro e inclusive bordão da campanha balizada na superação do partidarismo.  “Somos instituições de Estado, não somos instituião de governo, não temos partido. Nosso partido é o Brasil. Independente de mudanças ou permanência de um determinado governo por um período longo, as Forças Armadas cuidam da nação. São instituições permanentes, não mudamos a cada quatro anos a nossa maneira de pensar e como cumprir nossas missões”, afirmou Pujol.

Bolsonaro ameaçou usar a pólvora, "quando a saliva acabar", em reação à pressão por preservação da Amazônia sob risco de sanção econômica feita pelo democrata Joe Biden, presidente eleito para a Casa Branca, segundo projeção dos resultados da eleição na imprensa americana. 

O Palácio do Planalto não reconheceu ainda a vitória dele, nem a derrota de Donald Trump, republicano aliado de Bolsonaro. Logo depois, surgiram comparações sobre a capacidade das Forças Armadas do Brasil e dos EUA, maior potência bélica do planeta. Essas comparações irritaram generais da cúpula da Defesa, que as consideram descabidas, pela discrepância de poder de fogo.

Segundo dados do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo, divulgados em abril, o Brasil investiu US$ 26,9 bilhões em defesa, enquanto os Estados Unidos gastaram US$ 732 bilhões, em 2019.

O ministro da Defesa disse que Brasil e EUA mantêm parcerias militares estratégicas “muito importantes” e que perpassam governos. Para ele,  o recado de Bolsonaro a Biden e a falta de reconhecimento do resultado eleitoral não afetarão o relacionamento entre as casernas. O presidente Trump elevou o Brasil a aliado preferencial dos EUA fora dos países da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). “As Forças Armadas são organismos de Estado nos dois países”, ponderou Azevedo.

Orçamento

O ministro da Defesa também reclamou de “atraso” no desenvolvimento dos projetos estratégicos das três Forças. Ele afirmou que um dos seus objetivos na gestão é recuperar a capacidade operacional das forças militares do País. Todos os comandantes reclamaram da defasagem de armamentos e equipamentos e alertaram que podem se tornar obsoletos em breve.

“Os comandantes sabem muito bem que os nossos aparelhos, nossas principais máquinas e instrumentos são de 50, 60 anos de duração, necessita uma modernização ou novos equipamentos. A capacidade operacional das Forças Armadas tem que ser revista”, disse o ministro.

O ministro argumentou que, apesar de ter um território equivalente ao de dezenas de países europeus, o Brasil conta apenas com “uma Marinha, um Exército e uma Aeronáutica”. O tom foi o mesmo dos comandantes das Forças Armadas, que reclamaram de contingenciamentos orçamentários e do tamanho “diminuto” das tropas.

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