Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Após bolada de R$ 120 milhões na Mega-Sena, euforia dá lugar a cadeiras vazias no PT

Quem foi trabalhar e não jogou no bolão não escondia a frustração nesta manhã na Câmara, mas teve vencedor que apareceu

Renato Onofre, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2019 | 12h05
Atualizado 19 de setembro de 2019 | 20h55

BRASÍLIA – Após bolada de R$ 120 milhões na Mega-Sena, a euforia deu lugar a cadeiras vazias – e um certo ressentimento – na liderança do PT. Um dia após um grupo de servidores e assessores ganhar na loteria, parte dos sorteados no bolão não apareceu para trabalhar ou foi dispensado. Quem esteve no local e não jogou não escondeu a frustração.

“Bom não está”, relatou uma assessora que não participou do bolão. “Acho que eu merecia até um dia de folga”, afirmou a funcionária, que pediu para não ser identificada. “Tem de ver a alegria que virou a liderança do PT. Você chega lá e ninguém olha na sua cara”, afirmou o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), ao relatar o desânimo de alguns servidores que apareceram para trabalhar.

O líder do PT, deputado Paulo Pimenta (RS), afirmou que seis assessores pediram dispensa do dia para irem à Caixa Econômica Federal (CEF) resgatar o prêmio. O Estado percorreu as duas salas onde trabalha a maioria dos apostadores que compraram as 49 cotas do bolão premiado que rendeu, pelo menos, cerca de R$ 2,4 milhões para cada. 

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“Bom não está. Acho que eu merecia até um dia de folga”
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Funcionária da assessoria técnica do partido que não estava no bolão

Ao todo, são 96 servidores nomeados no gabinete da liderança, com salários que variam de R$ 3,6 mil a R$ 20 mil.

São estes assessores que ajudam os parlamentares a elaborar projetos, auxiliam nas votações, além de fazer a interlocução com outros deputados. Partidos com melhor assessoria se saem melhor nas votações.

Logo na recepção da sala principal da liderança petista, onde fica o gabinete de Pimenta, era possível ver uma consequência da noite desta quarta-feira, 18. Uma recepcionista e outros servidores que atuam no local não apareceram.

“São R$ 2 milhões. Não dá para viver o resto da vida. É hora de manter o pé no chão”, afirmou um dos ganhadores, que pediu à reportagem para não ser identificado. Ele afirmou que está muito feliz e que vai pensar como investir a bolada.

A aposta foi feita em uma loteria da Caixa em um supermercado da Asa Sul de Brasília. De acordo com Pimenta, até o momento, ele não recebeu nenhum pedido de exoneração.

Nas comissões, onde a maioria dos vencedores atua ajudando parlamentares, a vitória na loteria virou piada. “(Deputado Marcelo) Freixo, o PT está precisando de assessores. Não tem ninguém lá do PSOL, não?”, afirmou Paulo Teixeira, brincando com o colega de Câmara durante reunião do grupo de trabalho que analisa o pacote anticrime.

“Paulo Teixeira veio de Uber. Não tem nem ninguém para dirigir lá”, brincou Freixo, em alusão a um motorista da liderança que ganhou parte da bolada. “Estão dizendo que Aécio pediu a recontagem e que o Ciro falou que se não fosse o PT, ele teria ganho”, continuou Freixo.

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“São R$ 2 milhões. Não dá para viver o resto da vida. É hora de manter o pé no chão”
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Um dos funcionários vencedores da bolada

Nos últimos dez anos, sempre que há uma aposta acumulada, eles jogam. Normalmente, a cota é de R$ 50, mas desta vez o grupo optou por uma parcela de R$ 10. Em outros momentos, relatou um ganhador, o grupo já acertou a quadra e a quina.

O bolão também motivou busca por vagas de emprego na Câmara. Na manhã desta quinta-feira, uma ex-funcionária do Congresso entrou na sala para deixar currículo.

Além da imprensa, os ganhadores também estão sendo abordados por amigos e parentes. O Estado teve acesso a uma troca de mensagens no grupo de WhatsApp “Assessoria Parlamento PT”, que reúne assessores técnicos que jogaram e os que não jogaram.

Um servidor do Senado, que não fez parte do bolão dos colegas da Câmara, escreveu: “Agora é convencer a família que somos do Senado”, disse, em referência ao assédio que começou a receber. Outro respondeu: “Aqui já apareceu ‘amigo’ que desde outubro de 2018 não me chamava”.

Dinheiro do prêmio está fora de ‘dízimo’ petista, diz Gleisi

Os ganhadores do bolão da Mega-Sena filiados ao PT não precisarão dar o “dízimo”, como são chamadas as contribuições que parlamentares e ocupantes de cargos de confiança filiados têm de fazer ao partido. Pelo estatuto petista, quem for membro do PT tem de contribuir com um porcentual que varia de 2% a 20% do salário para ajudar na manutenção da legenda.

Cada uma das 49 cotas em que foi dividida a aposta pagará cerca de R$ 2,5 milhões.“O prêmio não entra na regra. Mas, quem quiser doar uma parte será muito bem-vindo”, afirmou a presidente do PT, Gleisi Hoffmann. O Estado apurou que uma sorteada que está lotada na assessoria técnica pretende doar uma porcentagem.

O porcentual varia de acordo com o valor do salário e é maior para os parlamentares. A cobrança do dízimo pelo PT já foi contestada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que proibiu o desconto na folha de pagamento. Mas o estatuto do partido, alterado em 2007, mantém a obrigatoriedade do pagamento mensal. Os parlamentares inadimplentes ficam sujeitos até a serem expulsos da legenda.

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