Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Após avanços, mortalidade infantil sobe e doenças voltam

Falta de investimentos compromete imunização e ações de aleitamento; casos de sarampo e malária crescem

Lígia Formenti, O Estado de S. Paulo

02 Setembro 2018 | 03h00

BRASÍLIA - A trajetória da taxa de mortalidade infantil no País é apontada como um claro exemplo de que os progressos alcançados na área de saúde estão longe de serem irreversíveis. Depois de 25 anos de queda, o Brasil registrou em 2016 o primeiro aumento nos indicadores de mortes entre crianças de até um ano. Foram 14 óbitos a cada mil nascidos vivos, 5% a mais do que havia sido contabilizado no ano anterior.

Inicialmente atribuído à redução de nascimentos por causa da zika, o crescimento da mortalidade também ocorreu em 2017. Dados preliminares mostram que 13,6 mortes a cada mil nascidos vivos. “A epidemia não explica o fenômeno por dois anos seguidos. Há provavelmente uma tendência de aumento”, constata o professor da Universidade Federal de Pelotas, Cesar Victora.

População pobre mais suscetível

O pesquisador atribui em parte a retomada das taxas de mortalidade a retrocessos em áreas que sabidamente exercem influência na qualidade saúde, como emprego, renda e igualdade no acesso. “A população está mais pobre, mais suscetível”, resume o professor. Não bastasse esses fatores, investimentos na saúde pública inferiores às necessidades comprometem também a qualidade da assistência médica - mesmo de programas voltados para problemas específicos, seja imunização, seja amamentação, seja cuidados básicos para saúde infantil. 

“As mortes por diarreia voltaram a aumentar. O programa de imunização, que sempre foi motivo de orgulho, também começou a mostrar sinais de retrocesso, com altos índices de crianças desprotegidas.” Outra iniciativa considerada exemplar do País, o programa de aleitamento materno, também está estagnado. “Houve avanços muito importantes. Mas desde 2013, as taxas de amamentação exclusiva estão estacionadas em números baixos.” Atualmente, 40% dos bebês recebem o aleitamento como alimentação exclusiva até os 6 meses. O ideal seria 100%. Com aleitamento, o bebê cresce com maior proteção contra infecções, por exemplo.

Para Victora, é essencial trabalhar pela melhora na qualidade do atendimento. “Esse é um dos desafios.” E isso vale também para a assistência à gestante. Assim como a mortalidade infantil, a taxa de morte materna (durante a gestação e até 42 dias depois do parto) também considerada alta: 64,4 por 100 mil nascidos vivos. “Para reduzi-las, precisamos enfrentar a discussão sobre a liberação do aborto, melhorar o pré-natal e reduzir as cesáreas”. 

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