Após 8 horas, sem-terra deixam ferrovia de Carajás no Pará

Protestos fazem parte do 'Abril Vermelho', que quer lembrar morte de 19 sem-terra em Eldorado dos Carajás

Carlos Mendes, de O Estado de S.Paulo,

17 de abril de 2008 | 17h11

A promessa, feita a um mês, foi cumprida. Cerca de 1.300 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra  (MST) e garimpeiros de Serra Pelada invadiram e fecharam por oito horas desta quinta-feira, 17, um trecho da ferrovia de Carajás, em Parauapebas, no sudeste do Pará. A interdição da ferrovia, suspensa por volta das 3 horas da tarde, foi para marcar os 12 anos do massacre de Eldorado dos Carajás e a morte de 19 sem-terra pela Polícia Militar paraense, além de protesto contra a lentidão da reforma agrária. A fazenda São Marcos, em Eldorado dos Carajás, também foi ocupada pelos invasores. Os empregados foram obrigados a retirar seus pertences da propriedade e acamparam na beira da estrada.   Veja Também: Sem-terra invadem ferrovia no PA e ocupam 8 pedágios no PR   Três horas depois do fechamento da ferrovia, a Polícia Militar deslocou 450 homens do Comando de Missões Especiais para o local, levando bombas de efeito moral, spray de pimenta, balas de borracha, cães e cavalaria. O comandante da operação militar, tenente-coronel Mário Solano, recomendou cautela à tropa. Duas pessoas foram presas depois que a ferrovia foi desocupada.   A Estrada de Ferro Carajás é a principal via de escoamento do minério de ferro da companhia. As ações do MST foram intensificadas porque nesta quinta completa 12 anos do massacre de 19 trabalhadores sem terra em Eldorado do Carajás, no Pará. As mobilizações que acontecem neste mês fazem parte do chamado "abril vermelho" - em lembrança aos mortos.   Pela manhã, durante o bloqueio, um trem da Vale carregado com minério de ferro não conseguiu frear, atingindo pedaços de madeira colocados sobre os trilhos. Pelo menos dez manifestantes, segundo o MST, teriam sido atingidos pelos troncos, saindo feridos. A Vale, empresa que administra a ferrovia, rebate a informação, dizendo que ninguém saiu ferido. A empresa acusa os manifestantes de arrancarem o maquinista à força da locomotiva para agredi-lo, mas ele saiu rapidamente do local.   A Vale paralisou o transporte de minério e dispensou do trabalho em Carajás seus cinco mil funcionários. O prejuízo com a paralisação dos trens, de acordo com um diretor da empresa, chega a U$$ 22 milhões diariamente. Este foi o terceiro bloqueio da ferrovia nos últimos cinco meses. Em fevereiro, uma liminar da Justiça Federal do Rio de Janeiro determinou multa de R$ 5 mil ao MST em caso de interdição. "A decisão não foi respeitada", diz a Vale em nota.   Na quarta-feira, a Justiça Federal de Marabá indeferiu um pedido de tutela antecipada feito pela empresa para que o Estado e a União oferecesse segurança pública à empresa, que alega vir sofrendo ameaças por parte dos integrantes do MST e do Movimento dos Trabalhadores e Garimpeiros da Mineração (MTM).   Para a Procuradoria Geral do Estado do Pará, o pedido da Vale era inócuo, porque o governo estadual já havia providenciado "todas as medidas necessárias para resolver pacificamente a tensão que se formava na região sul e sudeste do Pará, em virtude da concentração e chegada constante de pessoas ao local".   Em Belém, a marcha de 450 sem terra do MST acabou com a invasão da sede da Vale. Eles forçaram a entrada, estouraram o cadeado do portão, depositaram 19 cruzes e velas no chão da empresa, para simbolizar a morte dos companheiros em 1996, e foram embora para a Praça da Leitura, no bairro de São Braz, onde estão acampados.       Outros protestos   Na capital gaúcha, 500 sem-terra invadiram a sede da Receita Federal e outros 350, a Secretaria de Agricultura. Eles pedem a desapropriação da Fazenda Southall, em São Gabriel. Em Santa Catarina e no Paraná, mobilizações ocorreram em frente a agências bancárias. Segundo o BB, militantes foram recebidos pelos gerentes e entregaram pauta de reivindicações. No Espírito Santo, foram ocupadas agências da CEF e do BB em seis municípios. No Recife, os sem-terra invadiram a sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Em Sergipe, 150 famílias ocuparam a Agência do Banco do Nordeste, em Carira. Em São Paulo, foram invadidas a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em Bauru e três agências do BB no Pontal do Paranapanema. Cerca de 150 sem-terra ocuparam, por três horas, a Prefeitura de Serra Azul. O MST tentou entrar na Secretaria de Justiça na capital, mas a ação foi abortada com a chegada da polícia. Em reunião com o secretário Luiz Antônio Marrey, o grupo pediu audiência para discutir a federalização dos hortos florestais. Em Alagoas, grupo ocupou a entrada do Porto de Maceió. Em Goiás, famílias invadiram área em Crixás e bloquearam rodovia. Em Mato Grosso, famílias acamparam em frente a unidades da CEF. No vizinho Mato Grosso do Sul, rodovia foi bloqueada em Itaquiraí. Já no Rio, o km 242 da Dutra foi interditado por algumas horas, e na Bahia, sem-terra invadiram área de estação experimental. (Com Alexandre Rodrigues e Mônica Ciarelli, de O Estado de S.Paulo e Reuters)   Texto atualizado às 17h40

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