Após 14 anos, assassinos de sem-terra são condenados no PR

Acusados, porém, poderão recorrer da sentença em liberdade

Julio Cesar Lima, O Estado de S. Paulo

28 de novembro de 2012 | 22h07

CURITIBA - Após 14 anos, a morte do sem-terra Sebastião Camargo, de 65 anos, em Marilena, no Noroeste do Paraná, teve os seus dois primeiros réus condenados. Em julgamento que durou cerca de 17 horas, no Tribunal de Júri de Curitiba, o juiz da 2ª Vara Privativa do TJ, Daniel Ribeiro Surdi de Avelar, condenou o dono da Fazenda Boa Sorte, Teissin Tina a seis anos de prisão, por homicídio simples e Osnir Sanches por 14 anos de cadeia por homicídio qualificado. Sanches integrava uma milícia particular dos fazendeiros da região.

Sebastião foi assassinado com um tiro de escopeta na nuca a menos de um metro de distância, depois de não ter cumprido uma ordem de pistoleiros da região para se agachar, pois sofria de um problema cervical que o impedia. Os acusados, porém, poderão recorrer da sentença em liberdade.

Os outros acusados: Augusto Barbosa da Costa e Marcos Prochet, ex-presidente da União Democrática Ruralista (UDR), acusado de disparar o tiro fatal no idoso, serão julgados no início do próximo ano. "Haverá designação o mais rápido possível de um outro júri, possivelmente para o início do ano que vem, julgando os outros dois acusados", afirmou o juiz Daniel Avelar, em nota divulgada pela organização Terra de Direitos.

A forma como o crime foi praticado, além da demora no julgamento, levou a Comissão Interamericana de Direitos Humanos a responsabilizar o Brasil pelo crime, em 2011, após ler relatórios e detalhamentos da operação que envolceu cerca de 30 jagunços que realizaram despejos ilegais de sem-terra na região Noroeste.

O advogado de Teissin, Antônio Martins, disse à RPC que não pretende recorrer da sentença devido à idade avançada de seu cliente, que é de 78 anos. "Ele não cumprirá pena alguma". Já Roberto Iamaguro, advogado de Sanches, vai recorrer da decisão.

Segundo relatos da Organização Terra de Direitos, no dia 7 de fevereiro de 1998 um grupo de 30 pistoleiros vestidos de preto obrigaram 70 famílias a deitarem com o rosto voltado para o chão. Nesse instante, Sebastião ficou impedido por causa de seu problema e foi executado.

Os quatro envolvidos na morte de Sebastião integravam um grupo que à época era financiado, segundo denúncias de organizações de direitos humanos, pela UDR e tem ligações com as mortes dos sem-terra Sétimo Garibaldi (1998), Sebastião Maia (1999), Eduardo Anghinoni (1999) e Elias Meura (2004).

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