Após 12 horas de bloqueio, MST deixa área da Vale em Minas

Invasão dos movimentos obrigou à paralisação do transporte de passageiros e carga da ferrovia

Eduardo Kattah, de O Estado de S.Paulo

10 de março de 2008 | 18h52

Manifestantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), da Via Campesina e do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) invadiram e obstruíram nesta segunda-feira, 10, durante aproximadamente 12 horas os trilhos da ferrovia Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), em Resplendor, a 445 quilômetros de Belo Horizonte, na região do Vale do Rio Doce mineiro. Conforme a Polícia Militar, a ocupação teve início às 5 horas e só terminou por volta de 17 horas, após o juiz substituto Braulino Corrêa Neto conceder liminar de reintegração de posse em pedido feito pela mineradora.   Veja também: Sem-terra agiram em 4 Estados durante a semana passada Via Campesina destrói pesquisa da Monsanto Protestos da Via Campesina já atingiram 17 Estados   A ação dos movimentos obrigou à paralisação do transporte de passageiros e carga da ferrovia, que possui 905 quilômetros de extensão e corta 51 municípios em Minas Gerais e Espírito Santo. A Vale alegou que a invasão prejudicou cerca de 2,5 mil pessoas atendidas por dois trens que partem diariamente de Vitória e Belo Horizonte, passando por 29 cidades. Segundo a empresa, cerca de 300 mil toneladas de minério de ferro deixaram de ser transportadas pela EFVM com a paralisação dos serviços.   O maquinista de um trem cargueiro foi impedido pelos manifestantes de deixar o local da ocupação, mas a PM informou que não foram registradas agressões ou atos de violência. A Vale alegou em nota que os manifestantes arrancaram placas de sinalização da ferrovia e jogaram pneus sobre a linha.   Enquanto a PM informou que cerca de 600 pessoas - a maior parte mulheres, incluindo crianças - participaram da invasão, o MST disse que "mais de mil mulheres da Via Campesina" de Minas e Espírito Santo participaram da ação. A ocupação ocorreu durante a troca de turno e os invasores se concentraram em uma passagem de nível, na entrada da cidade.   Os movimentos acusaram a construção da Barragem de Aimorés, pela Vale e a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), de "inviabilizar o sistema de esgoto da cidade, inundando dois mil hectares de terra". Segundo comunicado veiculado pelo MST, a ocupação da EFVM integra a jornada nacional das mulheres da Via Campesina, "que denuncia o modelo que privilegia o agronegócio, em detrimento da agricultura familiar e impede a realização da reforma agrária".   A nota acusa ainda a Vale de ser uma das principais responsáveis pela destruição do meio ambiente em Minas e pela concentração de terras, por meio do plantio de eucalipto em larga escala, que alimenta as usina associadas.   A empresa, por sua vez, destacou "a violência e as constantes ameaças ao seu patrimônio e à vida de seus empregados pelo MST" e reafirmou que mantém "seu compromisso com a responsabilidade social e o desenvolvimento sustentável das regiões onde atua".   Ilegalidade   Além de conceder a liminar de reintegração de posse, o juiz substituto de Resplendor expediu interdito proibitório quanto à possível invasão e ocupação de algum outro ponto da ferrovia.   No despacho ele observa que "quanto ao direito", não havia nenhuma dúvida sobre a "ilegalidade da ocupação", pois "o ordenamento jurídico brasileiro não elegeu a paralisação dos meios de transporte como forma legítima de pressão". Destacou também que o bloqueio da linha e o impedimento do tráfego de trens impôs "elevado prejuízo" à Vale, "de difícil reparação".   Outras invasões   A manifestação desta segunda na qual cerca de mil mulheres da Via Campesina ocuparam os trilhos de uma das principais ferrovias da mineradora Vale, em Minas Gerais, faz parte de uma série de protestos realizados pela ala feminina do movimento contra o agronegócio e em defesa da Reforma Agrária e que já atingiram 17 Estados.   Além de Minas, os protestos ocorreram até agora em São Paulo (contra a Monsanto), Distrito Federal, Paraná, Rio de Janeiro (contra a Syngenta), Rio Grande do Sul (contra a Stora Enso), Pernambuco (contra a monocultura da cana), Rondônia, Alagoas, Rio Grande do Norte e Pará (cada uma delas com pautas estaduais), Bahia, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Ceará e Santa Catarina.   (Com Carina Urbanin, da AE)    

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