Após 10 anos, caso Ceci Cunha não tem nenhum punido

Deputada eleita pelo PSDB de Alagoas foi morta horas depois de ser diplomada, ao lado do marido

Moacir Assunção, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

Há quase dez anos, em 16 de dezembro de 1998, um brutal assassinato chocou o País, e os acusados pelo Ministério Público Federal como autores permanecem impunes. Horas depois de ser diplomada deputada federal pelo PSDB de Alagoas, a médica Ceci Cunha foi morta a tiros por pistoleiros, ao lado do marido, Juvenal Cunha, do cunhado, Iran Carlos Maranhão, e de Ítala Maranhão, mãe de Iran.Ela estava na casa do cunhado, no bairro Grota de Lourdes, em Maceió, onde comemoraria a eleição. Nas suas mãos ainda estava uma flor branca, que ganhara de uma eleitora. O vestido azul, com o qual havia recebido o diploma, ficou tinto de sangue. Sentada, Ceci foi atingida na nuca.As investigações apontaram o então deputado Talvane Albuquerque (PTN), suplente de Ceci na Câmara, como mandante do crime. Na interpretação do Ministério Público, ele queria o cargo e a imunidade parlamentar que dele adviria. Jadielson Barbosa da Silva, Alécio César Alves Vasco, José Alexandre dos Santos e Mendonça Medeiros da Silva, assessores e seguranças de Albuquerque, foram apontados como executores.Segundo a Polícia Federal, Mendonça Medeiros, um dos acusados, foi ao Fórum Desembargador Jairo Maia Fernandes, onde houve a diplomação, para monitorar Ceci e orientar os encarregados da execução. As vítimas, com outros dois sobreviventes, estavam na varanda da casa quando três pistoleiros invadiram o imóvel e atiraram, sem dar chance de defesa. O processo permaneceu por sete anos na Justiça Estadual, até que esta se declarou incompetente, já que o caso envolvia uma deputada e um suplente, que chegou a ser empossado em março daquele ano.Albuquerque foi cassado em abril de 1998, por 427 votos a 29. Em julho deste ano, no entanto, tornou-se secretário de Saúde de Craíbas, no interior de Alagoas. A nomeação causou fortes reações na imprensa alagoana. A prefeitura informou que há 15 dias ele deixou o cargo para se dedicar à administração dos hospitais Santa Maria e Teodora Albuquerque, de propriedade de sua família em Arapiraca, terra natal dele e da deputada assassinada.REVOLTAO filho de Ceci, Rodrigo Cunha, de 27 anos, que tinha 17 na época do crime, montou o site www.queremosjustica.com.br, em que relata o caso e dá publicidade aos atos do processo. "Uma vez, passava de carro por uma praia em Maceió quando vi o Talvane fazendo cooper, como se nada tivesse acontecido. É triste e decepcionante, um verdadeiro deboche, ver que todo esse tempo se passou e nada aconteceu com os assassinos, que permanecem impunes e poderosos", lamentou. Até hoje, Rodrigo e Adriana, a sua irmã, não vão a Arapiraca, onde vivem seus parentes, por medo de sofrer algum atentado.A expectativa do procurador da República Gino Sérvio Malta Lôbo, responsável pela denúncia, é de que os cinco acusados sejam levados a júri popular até junho de 2009. "Fora o período em que o processo ficou na Justiça Estadual, os acusados interpuseram uma série de recursos, vários deles protelatórios, o que tem atrasado a resolução. Tenho certeza, no entanto, de que as provas são mais do que suficientes para condenar todos eles", afirmou.Albuquerque e os seguranças estão sujeitos a penas de pelo menos 60 anos cada um. Leonardo Martins Rezende, juiz federal da 5.ª Região, prefere não arriscar uma data de julgamento. "Os réus apresentaram um recurso ao Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal Federal, que vão determinar se são ou não admissíveis. Só depois disso, o processo volta a correr", disse.DEFESAO ex-deputado Talvane Albuquerque foi procurado, por meio dos seus advogados, Antônio Tenório Cavalcante Neto e Cláudio Vieira, para dar a sua versão dos fatos, mas não respondeu aos pedidos de entrevista.

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