Gabriela Biló/Estadão - 2/9/21
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Apoio do agronegócio a Bolsonaro em 2018 foi ‘questão de momento’, diz presidente da CNA

João Martins da Silva Júnior diz que entidade vai apresentar demandas do setor a todos os candidatos à Presidência

André Shalders, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2021 | 17h24

BRASÍLIA – O presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), João Martins da Silva Júnior, disse nesta quarta-feira, 8, que o apoio do agronegócio a Jair Bolsonaro em 2018 foi pontual e pode não se repetir em 2022. Segundo ele, naquela eleição houve “algumas manifestações (de apoio do agronegócio ao presidente), mas eu acho que foi uma questão de momento”. Martins disse ainda que a entidade apresentará reivindicações a todos os candidatos presidenciais nas próximas eleições.

“A CNA, em minha gestão, nestes últimos anos, foi apolítica e continuará a ser apolítica (...). Nós entendemos que houve algumas manifestações, mas eu acho que foi questão de momento”, disse ele numa entrevista coletiva a jornalistas. “Eu acho que o que o setor tem (de fazer) é preparar um material, mostrar o que são as deficiências que existem hoje e o que é que nós queremos do próximo governo. E apresentar para todos os candidatos”, disse Martins.

A CNA é a principal entidade representativa do setor do agronegócio, e é tradicionalmente comandada pelos grandes produtores rurais. Antes de Martins, a entidade foi presidida pela senadora Kátia Abreu (Progressistas-TO), de 2008 a 2015.

Nos últimos meses, o setor vem recebendo uma série de más notícias: no terceiro trimestre de 2021, o valor movimentado pela agropecuária caiu 8%, puxando para baixo o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) do País. Além disso, a restrição da China à entrada de carne brasileira fez com que a exportação do produto brasileiro caísse 43% em outubro deste ano – o gigante asiático é o maior comprador da proteína animal brasileira.

Na entrevista a jornalistas, o presidente da CNA disse ainda que a ligação da entidade com o governo Bolsonaro se dá em torno de pautas, não de uma afinidade ideológica ou política. “Com este governo, nossa ligação não é de política partidária, é política classista”, disse ele. “O que nós pedimos deste governo? Temos problemas de escoamento da produção, de infraestrutura. Temos de mudar leis, e temos a Frente Parlamentar (da Agropecuária, a FPA) que intermedia essas questões (no Congresso)”, disse.

Divisão do agronegócio ficou evidente no 7 de Setembro

A divisão entre diferentes alas do agronegócio ficou clara em meados deste ano, quando o presidente Jair Bolsonaro convocou seus apoiadores para protestos em Brasília e em São Paulo no feriado do Dia da Independência, em 7 de setembro.

Uma parte do setor apoiou a realização dos atos, enquanto outros produtores criticaram os protestos, nos quais o presidente Jair Bolsonaro insultou ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e ameaçou descumprir decisões da Corte.

Numa gravação que viralizou no WhatsApp e em outras redes sociais, o cantor sertanejo Sérgio Reis convocou os caminhoneiros para participar do ato que iria “parar o país”. Segundo Reis, o grupo iria entregar uma série de reivindicações ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), incluindo o voto impresso para as eleições de 2022 e a destituição dos ministros do Supremo Tribunal Federal.

“Os plantadores de soja vão pôr as colheitadeiras nas estradas, ninguém pode andar, nem carro particular, nem ônibus. Todos estão sendo avisados”, disse Reis. A gravação foi feita na sede da Aprosoja Brasil, a associação que representa os produtores da leguminosa, após uma reunião de Reis com os dirigentes da entidade, inclusive o presidente, Antonio Galvan. O suposto caminhoneiro Marcos Antônio Pereira Gomes, mais conhecido como Zé Trovão, também estava no encontro.

A Aprosoja também apoiou a realização dos atos em Brasília e em São Paulo – o que gerou críticas. Ex-ministro da Agricultura e um dos maiores produtores de soja do Brasil, Blairo Maggi criticou Galvan. "A minha posição é contrária à do presidente Antônio Galvan. A nossa entidade de classe não tem que participar desse tipo de manifestação. Não podemos defender as pautas do presidente (Jair Bolsonaro), e sim as bandeiras da nossa categoria", disse ele a um jornal de Cuiabá (MT).

“Repito, o Galvan é livre para defender politicamente o que ele quiser. Mas que ele faça isso enquanto cidadão e não como entidade”, afirmou ele. Outros empresários do agronegócio também foram contra o apoio aos atos de 7 de Setembro.

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