Guglielmo Magiapane/Reuters
Guglielmo Magiapane/Reuters

Apesar de decreto de Bolsonaro, religiosos mantêm suspensão de cultos presenciais

Instituições religiosas optam por seguir determinação de prefeitos e governadores e evitar aglomerações e contato físico para prevenir fiéis contra o coronavírus

Renato Vasconcelos, Ricardo Galhardo e Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2020 | 13h21

Líderes religiosos e entidades de congregações afirmaram que não vão retomar os encontros presenciais em seus templos apesar do decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro, que inclui as atividades religiosas como serviços essenciais. De acordo com os líderes religiosos ouvidos pelo Estado nesta quinta-feira, 26, a tendência é que as atividades presenciais continuem sendo substituídas por ações virtuais como medida de prevenção ao coronavírus.

O decreto assinado por Bolsonaro e publicado no Diário Oficial da União desta quinta incluiu "atividades religiosas de qualquer natureza" à lista de serviços e atividades essenciais que podem funcionar normalmente durante a quarentena. O decreto pondera que as atividades devem seguir as recomendações do Ministério da Saúde.

Rituais religiosos e tradições não passaram ilesos ao covid-19 em outras partes do mundo. A Diocese de Roma fechou mais de 900 igrejas e o papa liberou os fiéis de irem à missa aos domingos. No Vaticano, a Praça de São Pedro não tem mais eventos. A Arábia Saudita fechou os portões de suas principais mesquitas para as tradicionais orações de sexta. Eventos religiosos em Israel foram suspensos e os sempre lotados templos hinduístas da Índia estão com restrição para funcionar.

Após a publicação do decreto de Bolsonaro, o Estado entrou em contato com entidades e líderes religiosos de diversas congregações para saber que medidas seriam tomadas em razão da liberação para a realização de atividades presenciais. Em geral, o posicionamento das igrejas e templos é manter a medida preventiva contra o coronavírus e seguir com a suspensão das atividades presenciais.

O rabino Michel Schlesinger, da Congregação Israelita Paulista, afirmou que as sinagogas continuarão seguindo as recomendações dos governos estadual e municipal e manterão o isolamento, apesar do decreto presidencial. De acordo com o rabino, a congregação foi consultada sobre o isolamento imposto em São Paulo e concordaram com a medida.

"Entendemos o que o momento demanda de nós, por isso orientamos que todos os atos possíveis sejam transferidos para o virtual. Hoje eu vou celebrar um velório, que não tem como ser feito de outra maneira, mas ainda assim alertamos à família para que compareçam apenas os entes mais próximos e que não tenham apresentado nenhum sintoma".

A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) informou que nas cidades onde a realização de cultos foi proibida, como em São Paulo, os templos estão abertos apenas para orações individuais e auxílio espiritual. Seus seguidores podem assistir aos cultos em casa. Em localidades onde foi estipulado limite para aglomeração de pessoas, a entrada de público nos templos é controlada. Já nos municípios onde não há nenhum tipo de restrição, os fiéis são orientados a manter distância de, no mínimo duas cadeiras. Também há orientação para evitar contato físico.

Além disso, segundo a IURD, "é oferecido álcool em gel ou água e sabão a todo visitante que entra em um templo da Universal, para higienizar corretamente as mãos".

O decreto também não irá alterar a rotina atual da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, segundo o pastor Silas Malafaia, líder dessa igreja e um dos principais aliados do presidente. "Desde sexta-feira passada não realizamos cultos presenciais, só pela internet, e vamos continuar assim", afirmou. Quando as primeiras regras de confinamento foram adotadas, Malafaia afirmou que não fecharia as igrejas, e chegou a ser alvo de uma ação judicial movida pelo Ministério Público do Rio. No Rio de Janeiro, a sede auxiliar da igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, na Penha (zona norte), funciona desde sexta-feira (20) das 9h às 21h (antes fechava às 17h), sem cultos, mas aberta para receber fiéis, que não podem passar de dez simultaneamente.

Na manhã desta quinta, o pastor Davi Lago, capelão da Primeira Igreja Batista de São Paulo, também afirmou que a recomendação ainda era manter a suspensão das atividades presenciais. "As igrejas batistas são descentralizadas e autônomas. Em nossa comunidade as reuniões presenciais permanecem suspensas", disse.

Apesar da estrutura descentralizada, Lago afirmou que a tendência é que a suspensão seja mantida na maioria das igrejas. "Isso está sendo conversado. Fiz alguns contatos diretos com colegas de outros estados. A resposta básica é a mesma: manter a suspensão das atividades presenciais", explicou o pastor, ressaltando que, apesar da suspensão, igrejas batistas de diferentes Estados estão se mobilizando para atividades como a distribuição de cestas básicas.

A Federação Espírita Brasileira também se manifestou após a publicação do decreto. Nela, a entidade afirma que as atividades não estão paralisadas, apenas migraram para as plataformas virtuais. "A recomendação da Federação Espírita Brasileira é de que os centros espíritas atentem para as orientações dos organismos de saúde. As atividades não estão paralisadas, estão acontecendo de maneira virtual e contínua. O movimento espírita continua atendendo às necessidades de esclarecimento, consolo e iluminação das pessoas, neste momento em que precisamos tanto de otimismo, de esperança e de mais caridade", diz o comunicado.

Procurada, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) informou que orientou todos os arcebispos e bispos a manterem as igrejas abertas, porém, "de modo como tem sido feito até agora apenas para orações individuais, transmissões online, etc". Segundo a CNBB, “não há como entender que os instrumentos legais possam obrigar a reabertura das igrejas, muito menos para a prática de qualquer tipo de aglomeração”.

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