Apesar da infância humilde, Alencar tornou-se empresário de sucesso

Aos 14 anos, o ex-vice-presidente já era balconista e aos 15 saiu de casa para buscar independência

Fausto Macedo, de O Estado de S.Paulo

29 de março de 2011 | 15h14

Aos 7 anos, Zezé renunciou à infância e foi ajudar o pai, Antônio Gomes da Silva, na pequena venda de Canteiro, povoado de Muriaé, Zona da Mata das Minas Gerais. Vendiam mantimentos, vestuário e ferramentas para os fazendeiros de café e deles recebiam só na safra, época da colheita.

 

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Aos 9, o menino carregou no braço até madeira e bambu para por de pé a escola do lugarejo, uma tulha - que é como chamavam o barracão onde ele conheceu os enigmas da aritmética que iria usar pelo resto de sua vida nos negócios que o tornaram empresário perspicaz e bem-sucedido.

Na ocasião, seo Antônio recebia um jornal do Rio, que chegava com algum atraso. Ele reunia o pessoal da vizinhança e lia as últimas notícias da Grande Guerra, corria os anos 40, e também as novidades do mercado. Um dia convenceu os donos daquela terra toda sobre a importância do ensino. E eles aprovaram a iniciativa pioneira de uma escola para os filhos dos empregados. Zezé vencia na passada, todo dia bem cedo, aqueles quatro quilômetros que separavam sua casa da sala de aula.

Aos 14 anos, o rapaz já era um balconista esperto e revelou sua aptidão para o ofício em Miraí, onde o pai montou um armazém de secos e molhados. Pouco depois da II Guerra, aos 15, Zezé deixou a casa dos pais e foi ganhar a vida, a independência. Foi embora e construiu uma biografia apreciável, seu grande patrimônio.

Era 1946. O gosto pelo mundo dos negócios o enfiou por caminhos imprevistos e muitos foram os desafios que superou. Zezé virou empresário de renome e prestígio, fazendeiro, homem de posses e político de respeito. Primeiro foi senador e depois vice-presidente do Brasil.

José Alencar Gomes da Silva nasceu no distrito de Itamuri, nas cercanias de Muriaé, a leste de Minas, em 17 de outubro de 1931. O décimo primeiro dos 15 filhos de seo Antonio Gomes da Silva e dona Dolores Peres Gomes da Silva. O cenário quase de exclusão, e num tempo de incertezas, levou cinco irmãos ainda pequenos.

Os 15 agora são 5. O mais velho é Álvaro, de 90 anos, que mora no Espírito Santo. Depois vem Elza, com 82, Célia, 80, Antônio, 72, e Dolores, com 68 anos.

Tirocínio. "O Zé sempre foi muito capaz, um tirocínio fabuloso para o comércio", depõe Antônio. "Ele tinha um brilho próprio, coisa por demais impressionante."

Quando deixou os pais seu destino foi a cidade e logo ele arrumou emprego em uma loja de tecidos muito concorrida por aquelas bandas, A Sedutora. Não demorou e ganhou sua primeira eleição, a de melhor vendedor da firma.

Foi morar num hotelzinho mambembe, no largo da estação de ferro. Ainda com uma renda esparsa, 600 cruzeiros era o seu salário, não tinha como custear aposento melhor. À sua maneira, com simpatia e amabilidades que eram a sua marca, convenceu a dona da hospedaria e pôde alojar-se no corredor mesmo, lá no fundo. Seu lar eram uma cama, uma cômoda e a janela para a rua.

Nesse hotel hospedava-se um comerciante de Caratinga que não escondia sua admiração por Zezé e o convidou para trabalhar com ele. João Bonfim, o comerciante, ofereceu o dobro e o rapaz, com 16 anos, mudou-se para Caratinga, onde foi trabalhar em outra loja de roupas, que levava o nome de seu proprietário, a Casa Bonfim. Em maio de 1948, como da outra vez, conquistou o título de melhor vendedor.

Quando fez 18 anos, seu irmão mais velho, Geraldo Gomes da Silva, emprestou-lhe 15 mil contos de réis. Com esse dinheiro, que era uma boa nota por aqueles tempos, e umas economias, Zezé abriu seu negócio em 1950, no dia 31 de março.

Caratinga ganhou A Queimadeira, casa comercial que abriu as portas na Avenida Olegário Maciel, 520, Barro Branco. O nome do estabelecimento foi por sugestão de um viajante português, sr. Lopes. "Vai vender barato", justificou, na ocasião. "Ele não era pão duro, mas muito econômico e disciplinado", lembra Antônio, que trabalhou algum tempo com José Alencar. "Comia de marmita e morava atrás das prateleiras."

Foi esse o modelo econômico que Alencar escolheu para baixar os custos e tornar competitiva a lojinha. "Assim eu consegui equilibrar meu orçamento", dizia ele. "Conhecia tudo do riscado, sabia onde estavam as melhores fontes do negócio, conhecia o mercado profundamente", lembra Antônio.

Tamancos. Era sortida A Queimadeira e nela a freguesia podia encontrar tecidos, tamancos, outros calçados, chapéus, guarda-chuvas para os cavalheiros e sombrinhas para as damas. Só não tinha empregado no estabelecimento, porque era Zezé, e apenas ele, para tocar a casa.

Dona Murica, da pensão, mandava o almoço. "Mas o Zezé só comia se não tivesse freguês na loja", conta o irmão. "Se chegava alguém ele punha o prato de lado e ia atender."

Em 1953 mudou de ramo. Vendeu a loja e investiu em cereais por atacado, ainda em Caratinga. Mas foi por pouco tempo porque logo fez sociedade com José Carlos de Oliveira, Wantuil Teixeira de Paula e seu irmão Antônio Gomes da Silva Filho. Surgia a Santa Cruz, fábrica de macarrão.

Foi por essa época que a mocinha recatada de olhos azuis e outras graças cativou o coração do jovem empreendedor. Mariza era o nome dela, filha do sr. Luís Campos, representante comercial de bom conceito pela região. Ela havia acabado de retornar do Rio, onde concluíra os estudos - formou-se enfermeira, em primeiro lugar e com louvor, no Instituto Ana Nery.

Alencar e Mariza Campos Gomes da Silva casaram-se em 1957 e tiveram três filhos - Josué Christiano, Maria da Graça e Patrícia - que a eles deram três netos e duas netas.

Ao fim de 1959 morreu Geraldo, o irmão, e Alencar assumiu a União dos Cometas. Quatro anos depois inaugurou a Cia. Industrial de Roupas União dos Cometas, mais tarde Wembley Roupas S.A. Presidia a Associação Comercial de Ubá (MG), em 1967, quando fez parceria com o empresário, poeta, advogado e, à época, deputado federal Luiz de Paula Ferreira, da Arena, e a ele associou-se em uma confecções em Montes Claros, a Companhia de Tecidos Norte de Minas (Coteminas), que transformou-se no maior conglomerado têxtil do Brasil, um dos maiores do mundo.

O governo federal havia instalado em Minas uma agência da Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste). "Criei um projeto de fábrica de tecidos e saí procurando sócio", recorda-se Luiz Ferreira, de 90 anos. "Meu capital não era suficiente. Gostei muito de conversar com o Alencar e o convidei para o negócio."

Há 42 anos a Coteminas tinha 400 funcionários. Hoje são 16 mil em 11 unidades de 4 Estados que fabricam e distribuem fios, tecidos, malhas, camisetas, meias, toalhas de banho e de rosto, roupões e lençóis para o Brasil, Estados Unidos, Europa e Mercosul. A Coteminas fatura R$ 1 bilhão por ano.

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