Apesar da 'desistência' de Moro, generais mantêm apoio ao centro

Enquanto Bolsonaro e Braga Netto louvam 1964, generais como Santos Cruz decidem manter distância do capitão

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2022 | 10h03

Caro leitor,

 

Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo Bolsonaro colocam os generais diante de um passado incômodo. No Exército se quer olhar para o futuro, em vez de lembrar desmandos e crimes cometidos nos quartéis quando se governava o País. Os generais aceitaram o discurso da pacificação, a partir de Leônidas Pires Gonçalves, ministro do Exército de José Sarney. Outro que fez o mesmo caminho publicamente foi Antônio Carlos de Andrada Serpa. Era 1996 quando ele se manifestou.

Serpa pediu equilíbrio para se examinar os fatos de 31 de Março de 1964. Fez críticas aos órgãos de repressão: “Como sempre, houve excessos criminosos: caso Rubens Paiva, Herzog, Fiel Filho e outros”. Para ele, ao afastar o comandante do 2.º Exército, general Ednardo D'Ávila Mello, o presidente Ernesto Geisel obedeceu ao “princípio militar de que o chefe é responsável por tudo o que fizer ou deixar de fazer (C 101-5, Estado-Maior e Ordens)”.  O mesmo valeria para o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Serpa concluiu, lembrando o exemplo de Caxias. “Quando solicitado a comemorar a vitória sobre os farrapos, em 1845, (Caxias) respondeu: ‘Não, antes rezemos um Te Deum pelas almas dos imperiais e farroupilhas, pois eram brasileiros’. Reconhecer o idealismo equivocado dos terroristas e os excessos da repressão será um convite à verdadeira Anistia e Justiça.” Não é esse o espírito presente na nota do Ministério da Defesa sobre o 31 de Março. 

Ao comemorar a data, Braga Netto celebra o que o pré-candidato à Presidência do Novo, Luiz Felipe d’Avila, chamou de “a morte da democracia". Inclui-se aí a censura aos jornais e as instituições em frangalhos. Apaga-se o arbítrio e a tortura. E, sem eles, não há mais razão para não se condecorar Ustra. Bolsonaro disse ao Estadão, em 2017, que pretendia transformar o coronel em “herói da Pátria” e que “morreram tarde” os dirigentes do PCB, assassinados pelo DOI-Codi em 1974 e 1975. Eram todos contrários à luta armada e favoráveis à redemocratização do País.

Para um militar, nada pior do que ficar preso às ideias do passado. Constrói-se assim a débâcle das Linhas Maginot. Nem deve pensar que a "guerra é o inferno" e não se pode moderá-la. Serpa – que saiu general durante o regime de seus pares – não esqueceu a lição de Caxias. O incômodo causado por Bolsonaro aos colegas é o de admitir em público e comemorar aquilo que o regime sempre negou: a tortura e o terror como políticas de Estado. Foi assim no IPM do caso Herzog e no inquérito do Riocentro. Bolsonaro faz, portanto, o que Costa e Silva, Medici, Geisel e Figueiredo não fizeram.

Há uma estirpe de políticos que justifica escolhas e atos por meio da ideia do mal menor. Executar terroristas preservaria vidas. Na França, esse fenômeno produziu as memórias do general Paul Aussaresses. O francês chefiou em Argel o Destacamento Operacional de Proteção (DOP), órgão que inspirou o Destacamento de Operações de Informações (DOI). Jacques Le Goff mostrou em História e Memória o que há por trás das revisões do passado: “Tornar-se senhor da memória ou do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, grupos e indivíduos que dominam e dominaram as sociedades históricas”.

Como classificar a afirmação de Eduardo sobre as torturas sofridas pela jornalista Miriam Leitão? Tratar com desumanidade uma mulher – seja qual for – indefesa e submetida à violência é algo que lembra o comportamento do deputado estadual Mamãe Falei. Não estamos diante do engano trágico que faz Manrico, em Il Trovatore, de Verdi, lançar o anátema sobre Lenora: 'Infame!". Eduardo demonstra saber o que se passou com Miriam no quartel e debocha de a terem despido e torturado com uma jiboia. O senso de humanidade não deve lembrar a todos, desta vez sem enganos, o grito de Manrico? A política é áspera. Mas há limites. 

Em 2018, após o atentado, um assessor de Bolsnaro reclamou da postagem de um jornalista que dizia que "a faca passava bem". Tinha razão. A guerra cultural que o bolsonarismo julga combater foi analisada pelo professor Celso Lafer. Ele usou dois autores para compreender o governo: o francês Étienne de La Boétie e o alemão Carl Schmitt. La Boétie trata da servidão voluntária, o que Bolsonaro exige de seus apoiadores. Mais de uma dezena de generais que se opuseram em algum momento aos planos do chefe foi destituída de seus cargos. Silva e Luna é apenas o último a se juntar ao cordão que teve em seu início o nome de Santos Cruz. 

Schmitt, o gênio do mal, como o apodava o filósofo Roberto Romano, é importante para a compreensão do processo por Lafer batizado de “cupinização” da República. Para Schmitt, não interessava a normalidade, importava a exceção. O líder não deve submeter o governo às leis, nem ser por elas governado. Ao defender o primado da vontade, quer transformá-la em fonte da soberania, com a qual declara a exceção. Usurpa a soberania popular e se esquece que, sem a comunidade, a vontade não é livre nem efetiva. Não se constrói um hospital sozinho. A esfera pública precisa da união, da philia que sedimenta a cidadania.

Daí por que, como o Poder Judiciário não pôde ser capturado ou cooptado, ele se tornou alvo da obsessão de Bolsonaro. É preciso lembrar que o princípio de que o juiz deve se manter imparcial e não se manifestar sobre o que julga tem raiz na mesma prudência que aconselha o silêncio aos homens das Armas sobre a política, submetendo-se às ordens do Poder Civil. Caxias sabia que exaltar uma vitória sobre brasileiros esgarçaria o futuro da Nação. E um exército deve representá-la em seu todo, e não apenas aqueles com os quais ideologicamente a maioria de seus oficiais se identifica.

Se Braga Netto quisesse honrar a cidadania e tratar um feito de armas que nos legou a democracia, devia pedir à Nação que comemorasse o 21 de Fevereiro de 1945, dia da tomada de Monte Castelo, uma data que a República esqueceu. No Castelo estavam o tenente-coronel Castelo Branco e o primeiro-tenente Salomão Malina, futuro secretário-geral do PCB. Mas o significado da FEB e as reflexões de Serpa e de Caxias parecem não importar mais.  

Em vez delas, temos Bolsonaro repetindo que o Exército garantiu a democracia em 31 de março. Louvar os feitos das armas de um passado mítico não os torna verdadeiro. Deixa Augusto feliz com a ideia de descender de um troiano e contente por Júpiter ter traçado a Vênus o sucesso do império de César. Em Brasília é assim: na falta de um Virgilio, serve um Braga Netto. Não se nota a diferença, no Brasil ou na Itália. O que importa é a fama chegar às estrelas ou "imperium oceano, famam qui terminet astris".

É por essas – e outras – que a maioria dos militares desgostosos com Bolsonaro ainda aposta na terceira via, apesar do naufrágio da candidatura de Sérgio Moro. É verdade que muitos emudeceram e outros críticos preferiram dirigir suas baterias contra o líder das pesquisas, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Alguns estão lentamente quebrando o gelo. Um deles é o general Santos Cruz. Apoiador de primeira hora de Moro, ele afirmou à coluna: "Continuo no Podemos. A candidatura a algum cargo vai depender de conversa com o partido e o contexto de apoios. Candidato ou não, apoiarei o candidato de centro.”

 

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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