Apesar da blindagem, Lula é vaiado ao lançar PAC em Aracaju

Com receio de manifestações negativas após acidente com avião da TAM, presidente trocou Sul pelo Nordeste

Tânia Monteiro, do Estadão,

26 de julho de 2007 | 19h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi vaiado em Aracaju nesta quinta-feira, 26, por um pequeno grupo de funcionários do Incra, do Ministério da Cultura e estudantes apesar da blindagem preparada pelo Planalto e pelo governo petista de Sergipe. Só participaram do evento de lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) quem estivesse com convites em mãos, cuidadosamente distribuídos.   Veja também:   Galeria de fotos No Nordeste, Lula diz que políticos têm de ser 'mais civilizados'   As vaias dos servidores em greve acabaram sendo abafadas pelos aplausos e gritos de 'Olê Olê Olá, Lula Lula', dados principalmente por militantes do PT e do MST, convidados para o evento, que chegaram a se desentender com os manifestantes. Esta semana, por receio de manifestações negativas em razão do acidente com o avião da TAM, presidente trocou o Sul pelo Nordeste - onde é bem avaliado - para cumprir cronograma de lançamento do PAC.    Na cerimônia, os seguranças do Planalto e do evento tomaram ainda a faixa vermelha dos manifestantes que dizia "Lula traidor". A ministra chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, coordenadora do PAC, também foi vaiada pelo menos duas vezes pelos poucos manifestantes contrários ao governo, presentes ao evento. Do lado de fora, estudantes promoviam um apitaço, xingavam o presidente e chegaram a atear fogo num boneco de pano "com barba" e com faixa presidencial que batizaram de Lula.   Impaciência   Acostumado a aplausos, Lula deu claras demonstrações de impaciência na cerimônia, olhando o relógio algumas vezes, e chegou a ficar com o olhar perdido enquanto ouvia os discursos que antecediam o seu. Ele já havia ficado muito aborrecido com as seis vaias tomadas no Maracanã, no Rio de Janeiro, no último dia 13, na abertura dos jogos Panamericanos. Na época, chegou a se queixar para interlocutores e tratou do assunto no programa de rádio Café com o Presidente.   Nesta quinta-feira, apesar de ter preferido ignorar o assunto em seu breve discurso de improviso de 15 minutos - normalmente fala longamente em cerimônias, pelo menos meia hora - Lula chegou a procurar com os olhos onde estavam os manifestantes, quando eles começaram a vaiar a ministra Dilma. Na semana passada, depois do acidente com o Airbus da TAM Lula já havia cancelado as viagens que faria ao Sul, onde poderia sofrer outras manifestações, embora o Planalto negue que ele tenha adiado a ida lá por causa disso.   Menor impacto   O governador Marcelo Déda disse que o presidente "não ficou chateado" ou mesmo se sentiu irritado com as vaias. "Eles (os que vaiavam) eram muito poucos" tentou minimizar o governador. "Toda viagem do presidente tem de ter alguém fazendo barulho. Faz parte do jogo", declarou o governador, acrescentando que "isso não perturbou nem incomodou o ato".   Além das vaias dadas pelos funcionários que conseguiram convite "com conhecidos", a cerimônia teria sido muito mais conturbada se os seguranças do Planalto e do governo do estado tivessem deixado entrar no centro de convenções os mais de cem estudantes da Universidade Federal de Sergipe. Quatro deles, que conseguiram entrar no centro de convenções, e engrossavam as vaias, acabaram sendo retirados "por não possuírem convites".   "Houve uma recomendação da Presidência de que precisaria do convite para entrar ou ter seu nome na lista", explicou o coordenador de imprensa do governo de Sergipe, Leonardo Zanelli. Já o Planalto, informou que a organização deste e dos demais eventos do PAC saneamento e habitação está a cargo do governo dos estados, com apoio da Secretaria Geral da Presidência. Em relação a Aracaju, o Planalto diz que não houve nenhuma recomendação especial.   Auxiliares do presidente justificaram que "é praxe" a retirada de faixas contrárias ao governo e justificaram que quem retirou as faixas dos manifestantes foram os próprios presentes que não concordavam com os atos contra Lula.   O Centro de Convenções estava preparado para receber quatro mil pessoas convidadas, muitas delas funcionárias públicas estaduais e municipais, que foram dispensadas do trabalho, para comparecerem ao evento. Cerca de 200 integrantes do MST, também foram convidados para a cerimônia, assim como jovens que participam do programa Consórcio social da Juventude, que foram levados em dois ônibus para lá.   Pobres Em seu discurso, o presidente Lula voltou a lembrar de sua infância pobre e comentou que quando chegou a São Paulo tinha uma barriga enorme "que era puro verme", doença adquirida por falta de água tratada. Em seguida brincou afirmando que ficou bonito depois de velho.   Para ele, é importante investir em saneamento, embora seja obra que político não pode por placa com seu nome ou de parente. Citou também que "tem gente" que gostaria que o governo estivesse investindo esse dinheiro em outras coisas "que tivessem mais visibilidade". E prosseguiu: "porque, no Brasil, eu volto a repetir, pobre só é lembrado em época de eleição e, em época de eleição pobre é igualzinho a um banqueiro mas, depois das eleições, o pobre é esquecido".   Lula disse que vai pagar o preço que tiver de pagar e que irá "enfrentar os preconceitos que tivermos que enfrentar". E avisou: "no nosso governo, o pobre vai ser tratado como gente, vai ser tratado com dignidade, as pessoas terão os seus direitos respeitados. É por isso que nós estamos fazendo o investimento de 106 bilhões de reais e, só para saneamento e urbanização, 40 bilhões de reais". Na cerimônia, a ministra Dilma anunciou a liberação de R$ 401 milhões para saneamento e urbanização de favelas em Sergipe, beneficiando 900 mil pessoas e assegurou que este dinheiro não será contingenciado.

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