Aparências, nada mais

Na condição de secretário-geral da Presidência da República, interlocutor do governo junto aos movimentos sociais e braço avançado de Lula no Palácio do Planalto, Gilberto Carvalho não seria quem é nem estaria onde está se andasse ou falasse em completa desconexão com os mandamentos do "projeto".

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2014 | 02h03

Quando pareceu divergir do tom ufanista do PT estava dourando a pílula, contornando na superfície um discurso que no conteúdo reforça o lema central de ataque escolhido pelo partido para essas eleições. Senão, vejamos.

Num primeiro movimento, disse que os insultos dirigidos à presidente Dilma Rousseff na abertura da Copa do Mundo não eram coisa só da "elite branca". Deu a impressão de que fazia uma análise realista e ponderada do cenário. O PT reagiu negativamente.

Cinco dias depois, no segundo movimento, em entrevista à Folha de S. Paulo, o ministro detalhou o tema. Foi bastante específico ao dizer que o partido se ilude ao achar que "o povo pensa que está tudo bem". Na opinião dele, "um erro de diagnóstico" que impede a aplicação do "bom remédio".

Em tese haveria ali matéria-prima para polêmica, mas o PT não reagiu. Motivo para se voltar à entrevista. Relendo com lupa, logo se vê a razão do silêncio: justamente o diagnóstico detalhado de Gilberto Carvalho, que isenta o governo de qualquer responsabilidade pelo que não vai bem. A julgar por seu retrato da cena, é uma vítima.

Não faz ali referência alguma à necessidade de correção nessa ou naquela política governamental. Nada diz sobre inflação, baixo crescimento, inoperância, má qualidade de serviços públicos e tudo o que nas pesquisas aparece como motivo da crescente má avaliação do governo.

Para o ministro, a origem do mal estar é uma só: "Um pensamento conservador que se expressa fortemente por meio dos veículos de comunicação e que opera um cerco contra nós". O "cerco", segundo ele, "tem dado resultado na medida em que ganha amplitude".

A receita dele para ganhar as eleições, construir "pontes" com toda a sociedade, não é corrigir o que não anda bem. É, antes, "furar esse grande bloqueio, para mostrar ao País num debate aberto, sem mediações, o que de fato foi e está sendo realizado".

Quer dizer, "de fato" está tudo bem; errados estão os meios de comunicação que resolveram montar um "cerco" ao governo e, na base de mentiras, tem levado os brasileiros a pensar que algo não vai bem. Aqui a análise do ministro se coaduna perfeitamente com o lema do PT de que a imprensa independente é o inimigo a ser combatido.

O discurso é coincidente até nas pinceladas de autocrítica, as mesmas de sempre quando o PT se vê de frente para a adversidade: reconhecimento dos erros de "alguns", admissão de que o vírus da "velha política" contaminou o PT, burocratização da estrutura partidária, necessidade de produção de um "grande debate interno" e, claro, a indefectível reforma política.

Não há, portanto, divergência. Há, sim, convergência de fundo no velho truque de transferir a culpa pela má notícia ao mensageiro e de eleger um foco de hostilidade a fim de distrair a plateia dos problemas concretos.

Deu certo outras vezes. Pode ser que dê de novo. A conferir se diagnóstico e remédio vão dialogar de maneira eficaz. Primeiro entre si e depois com o eleitorado.

Obsequioso. A versão oficial do PSD para a manutenção da aliança com a presidente é o dever de gratidão. Pelo fato de Dilma ter ajudado com apoio político e logístico o partido em seu processo de criação.

Além disso, ao contrário do PSDB, o PT ficou ao lado do PSD na luta judicial (ganha) pelo direito ao tempo de televisão e dinheiro do fundo partidário.

O agradecimento, contudo, limita-se à figura do ex-prefeito Gilberto Kassab. Em atenção a ele o partido não submeteu a decisão a votos. Para evitar constrangimento.

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