Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

Aos 105 anos, morre ex-combatente de 1932 e primeira promotora do Brasil

Neta de industrial inglês, a brasileira Zuleika Sucupira Kenworthy foi voluntária para lutar ao lado das tropas paulistas durante a revolução contra Getúlio Vargas

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2017 | 12h12

SOROCABA – Primeira mulher brasileira a ingressar por concurso no Ministério Público, numa época em que a profissão era exclusividade masculina, Zuleika Sucupira Kenworthy morreu, na noite de quarta-feira, 13, aos 105 anos de idade, em Sorocaba, interior de São Paulo. Zuleika também era admirada por ter se apresentado como voluntária para combater ao lado das tropas paulistas na Revolução Constitucionalista de 1932. De acordo com a sobrinha Elza Mônica de Oliveira Bitencourt, que estava com ela em seu último momento, Zuleika teve uma morte serena, em sua casa, como era seu desejo. “Foi um exemplo a vida toda, até na morte”, disse.

Zuleika era neta de John Kenworthy, um empresário inglês que, ao final do século 19, deixou a região de Manchester, na Inglaterra, para montar indústrias têxteis no Brasil. Em Sorocaba, ele construiu a fábrica de tecidos Santo Antonio, que se tornou a base da Companhia Nacional de Estamparia (Cianê), o maior conglomerado têxtil do País no fim do século passado. Depois de cursar Direito no Largo de São Francisco, em São Paulo, Zuleika decidiu se tornar promotora pública. Ela contava que enfrentou preconceitos e teve de prestar o concurso três vezes – nas duas primeiras, fez provas perfeitas, mas não entrou. Quando, afinal, foi aprovada, teve de ouvir de um procurador que, se ele estivesse na banca, ela não seria aprovada – por ser mulher.

Na juventude, morando com a família no bairro Aclimação, em São Paulo, Zuleika se apresentou como voluntária para combater as tropas de Getúlio Vargas, na Revolução de 32, como contou ao Estado, no início de julho deste ano. Pelo menos três dos combatentes que estavam vivos em julho deste ano morreram, restando cinco deles.

“Eu queria ir para a frente de combate como enfermeira, mas era preciso ter 21 anos. Então fui destacada para montar as caixas de primeiros socorros para os combatentes, com outras mulheres.” Ela recordou os ataques das tropas federais à capital e a forte resistência dos paulistas. Contou ainda como Getúlio usava as rádios oficiais para fazer propaganda contra a população de São Paulo, especialmente os imigrantes italianos. “Ele dizia que os imigrantes queriam entregar São Paulo para o Mussolini (Benito Mussolini, primeiro-ministro italiano) e o fascismo.       

Quando as tropas federais do Norte e Nordeste vieram pelo Rio de Janeiro e entraram em São Paulo, elas não atacaram a Sé, foram direto para o Brás e deram muitos tiros nas paredes das fábricas, nas casas, porque eles estavam com muita raiva dos italianos”, revelou, na ocasião. A ex-combatente revelou que, anos depois, a revolução ainda era o principal assunto entre os paulistanos. “Quando fui estudar Direito no Largo de São Francisco, encontrei muitos revolucionários. Éramos só três mulheres no curso e a gente se perguntava por que São Paulo fez a revolução. Acho que a luta não era contra o Getúlio, mas contra a ditadura. São Paulo não queria ser capacho de um ditador.”

    Em 1963, Zuleika representou o Brasil no encontro sul-americano sobre criminologia e prevenção da delinquência promovido pela Organização das Nações Unidades (ONU). Dois anos depois, participou como convidada de um congresso da ONU sobre o tema em Estocolmo, na Suécia. Zuleika nasceu em Jundiaí, mas desde que se aposentou vivia em Sorocaba, onde recebeu o título de Cidadã Sorocabana. Seu corpo está sendo velado no Espaço Pax, em Sorocaba, e será sepultado no Cemitério Pax, às 15 horas.

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